Doutor Gabriel Martins: amor e tragédia em Londrina
Novo livro de Marco Fabiani resgata a trágica história do médico pioneiro que dá nome à praça no centro da cidade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de junho de 2025
Novo livro de Marco Fabiani resgata a trágica história do médico pioneiro que dá nome à praça no centro da cidade
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

No dia 23 de abril de 1943 a população da pacata Londrina acordou com uma notícia estarrecedora: o falecimento do médico Gabriel Martins. Sua inesperada e inexplicável morte instaurou uma nuvem de mistério sobre a cidade.
Esse mistério é elucidado pelo escritor londrinense Marco Fabiani em “Doutor Gabriel – Uma Alma Partida”, livro publicado pela editora Atrito Arte. A obra traz o texto teatral do espetáculo homônimo que estreou em 2023 e nesta quinta-feira (12), inicia sua terceira temporada no teatro da AML Cultural. O lançamento do livro também acontece na quinta, às 21h, logo após a apresentação da peça dirigida por Silvio Ribeiro.
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Em suas páginas o autor expõe o dilema vivido por Gabriel Martins, um impasse que envolve o amor e a razão, o individual e o coletivo. Um dilema com atmosfera trágica que culmina em sua morte.
Autor dos romances “O Lugar das Cinzas”, “Um Bourbon Para Faulkner” e “A Memória é Um Pássaro Sem Luz”, Marco Fabiani a seguir fala de seu novo livro e sobre os dilemas vividos por Gabriel Martins em Londrina da década de 1940.
No livro você resgata a trajetória de Gabriel Martins, médico pioneiro que chegou em Londrina em 1936 e participou do nascimento da cidade. Quem foi Gabriel Martins?
Ele se formou na Universidade Federal do Paraná aos 25 anos. Em 1936 decidiu começar a vida profissional numa cidade que onde tudo estava por fazer.
Chegou em Londrina com o cargo de Delegado de Higiene e Saúde Pública. E sempre teve atuação destacada na assistência aos desvalidos, criou o chamado “Hospitalzinho dos Indigentes” que atendia os mais pobres. Era muito querido pela população e também entre os colegas. Era um médico dotado de uma tradição humanista relativamente comum na época.
Por que você optou por transformar a história desse personagem em peça de teatro, não em um romance histórico?
Ele teve uma vida tão curta, morreu aos 32 anos. E para contar sua história teria que construir uma parte ficcional muito grande, afinal seu cotidiano foi comum, sem elementos dramáticos. E me pareceu que a melhor forma de contar essa história de vida tão curta e tão intensa seria o texto dramatúrgico, que mostraria seu conflito íntimo de maneira mais clara e impactante. E também retratar o impacto que ele teve na cidade.
Em “Doutor Gabriel – Uma Alma Partida” o personagem principal vive um dilema ético e moral. Um dilema que envolve amor e razão, envolve o bem individual e o bem coletivo. Que dilema é esse?
Ele, um médico humanista, querido da comunidade, tinha a tarefa de cuidar não só das doenças individuais, mas também as doenças coletivas. Vale lembrar que na época, surtos de febre amarela e malária eram comuns por aqui. Ele, com essa responsabilidade, vê sua noiva diagnosticada com hanseníase, a popular lepra. Essa doença, por força de um decreto federal de 1920 era de notificação obrigatória ao serviço público e de internação compulsória nos dispensários de leprosos, os chamados leprosários. Ela, a noiva, não aceita ficar confinada em um leprosário. Ele fica entre escolhas extremamente difíceis: cuidar da comunidade ou proteger a noiva, portanto não comunicar a doença. As opções eram antagônicas.

E que dimensões trágicas esse dilema adquire?
Se ele segue a norma de comunicar aos serviços de saúde oficiais, ele protege a comunidade e não permite que alguém contaminado transmita a doença. Vale ressaltar que hoje os conceitos de contágio da hanseníase mudaram e não se isola mais os pacientes. Mas, na época, isso era uma verdade absoluta. Se ele aceita proteger a noiva e evitar que ela seja internada e viva isolada do mundo, ele comete a traição do princípio científico e ético de proteger a comunidade.
Fontes da história oficial afirmam que Gabriel Martins morreu de ataque cardíaco. Fontes não oficiais dizem que ele cometeu suicídio. Qual dessas fontes está mais próxima da verdade?
Conversei com vários médicos pioneiros e a versão consensual foi a de que ele se envenenou. E várias situações confirmam isso. Mas, na época, não se noticiava suicídio – algo que também acontece nos dias de hoje.
A dramaturgia de “Doutor Gabriel – Uma Alma Partida” utiliza elementos da tragédia grega. Você considera que a história de Gabriel Martins é uma típica tragédia?
A tragédia tem múltiplos elementos e é complexa. Mas, um dos fundamentos dela é de que forças intensas e justas se contrapõem e há um confronto inevitável e insolúvel. Neste sentido a história do Dr. Gabriel é trágica. Entre o amor pela amada e o compromisso com a saúde da cidade o que escolher? A decisão, seja qual for, trará consequências gravíssimas. E o médico toma consciência disso e decide, mas às custas da própria vida.
Você considera que o dilema ético e moral presente em “Doutor Gabriel – Uma Alma Partida” é algo do passado, ou esse tipo de dilema ainda existe em questões dos dias atuais?
A tragédia, como os mitos, percorre áreas profundas da condição humana. Portanto são indissociáveis da nossa vida. Todo dia vemos tragédias estampadas no noticiário. Medéia, Édipo, Antígona, enfim todas essas histórias fazem parte de nós como seres humanos. São eternas. O drama do Dr. Gabriel de se confrontar com decisões em que não há ganhadores faz parte, com maior ou menor intensidade, do nosso cotidiano.

SERVIÇO:
“Doutor Gabriel – Uma Alma Partida”
Autor – Marco Fabiani
Editora – Atrito Arte
Páginas – 56
Quanto – R$ 40
Lançamento:
Quando – quinta-feira (12), às 21h
Onde – AML Cultural (Rua Maestro Egídio Camargo do Amaral, 130 - em frente à
Concha Acústica)


