''O incêndio do Teatro Ouro Verde é uma cena que nem em filme de ficção queria ter visto.'' Foi dessa forma, ainda muito abalada, que ontem a ex-diretora da Casa de Cultura no período de 2007 a 2010, Janete El Haouli, referiu-se ao último domingo, quando presenciou em chamas o local que por quase 60 anos foi a principal referência cultural da cidade. ''O Ouro Verde era a nossa 'menina dos olhos verdes', pois, assim como o 11º andar do Edifício Júlio Fuganti, era o único prédio de propriedade da UEL dedicado à área cultural, que infelizmente se acabou'', lamentou.
Preocupada com o que será feito a partir de agora, Janete lembra que por ser um ano eleitoral há trâmites burocráticos que impedem a liberação de recursos para a construção imediata de um novo prédio. ''Durante a minha gestão como diretora da Casa de Cultura, pensamos em lançar uma campanha em prol do Ouro Verde, a 'SOS Ouro Verde', para que a população tomasse consciência da real situação do teatro, que mesmo após a grande reforma realizada no Governo Jaime Lerner, em 2002 (dentro do projeto ''Velho Cinema Novo''), e outra reforma complementar, em 2006 (Governo Roberto Requião), ainda apresentava problemas técnicos'', lembrou.
''Eram tantas as solicitações de reparos que recebíamos, quando assumimos, que entregamos um dossiê com um diagnóstico detalhado, inclusive com fotos, de diversas situações precárias que não deveriam estar ocorrendo. A nossa intenção era que isso fosse encaminhado para o Ministério Público. Mas até quando saí, não houve uma solução efetiva e fomos fazendo pequenos reparos, conforme o orçamento da UEL'', acrescentou. Paredes rachadas, poltronas quebradas, infiltrações e fios elétricos expostos eram alguns dos itens citados no documento que foi encaminhado ao então reitor Wilmar Marçal, em 2008.
''É claro que é necessário esperarmos pelo laudo técnico sobre a real causa do incêndio, mas é fato que o Ouro Verde estava sob ameaça. Defendo uma administração preventiva, mas infelizmente no Brasil há uma certa tendência de esperar que as tragédias aconteçam para se tomar as atitudes necessárias'',avaliou.
Trabalhando atualmente como pesquisadora e artista sonora, já que está aposentada da UEL há um ano - após lecionar no Departamento de Música e Teatro por 30 anos, além de dirigir a Rádio da UEL de 2001 a 2005 -, Janete também comenta sobre a relação afetiva que a comunidade londrinense tem com o Ouro Verde: ''Agora todos estão chorando e precisamos cobrar mais ações efetivas das nossas autoridades. Acho que também devemos tomar cuidado com a ideia de fazer os eventos culturais mesmo sem as condições necessárias. Isso pode contribuir para a continuidade do problema''.
Com saudosismo, ela se lembra de quando ainda morava em Cambé e vinha para Londrina, aos domingos, para ir ao então Cine-Teatro Ouro Verde ver filmes e comer balas de framboesa. ''Agora chegou a hora de sermos sonhadores pragmáticos, voltados à ação. A perda do Ouro Verde é uma dor que chega a tremer o corpo'', concluiu.

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