Paulo WolfgangMarco Antonio de Almeida: convite para interpretar Schubert veio do cineasta alemão Helmut DietlO cachê é muito bom, a proposta é séria, o homenageado é um gênio mas assim mesmo o pianista londrinense Marco Antonio de Almeida não sabe se aceita ou não interpretar o compositor Franz Schubert (1797-1828) no filme que o diretor alemão Helmut Dietl pretende rodar em breve. Se depender do pianista a responsa será um sonoro sim. Mas o empresário dele acha melhor não. O argumento: Almeida é músico erudito e não ator; portanto é melhor não confundir as coisas para não arranhar a imagem de músico de prestígio que tem no Exterior. A resposta oficial deve ser dada nos próximos dias.
Mesmo que não aceite - ou que seja convencido a não aceitar -, já está certo com dois e dois são quatro que Marco Antonio de Almeida irá executar a trilha sonora do filme que deve começar a ser rodado em julho ou agosto. A cinebiografia do austríaco Schubert, segundo o pianista, vai mostrar sobretudo o lado humano do compositor com ênfase à vida boêmia, os amores e desamores e a doença que o matou - sífilis, incurável na sua época. O filme será patrocinado pelo governo alemão com a colaboração de alguns produtores particulares.
O convite para incorporar o compositor partiu de maneira inusitada. O diretor Dietl estava à caça de um ator desconhecido e com semelhanças físicas à de Schubert para protagonizar o filme. Em fevereiro deste ano, numa das festas do Festival de Cinema de Berlim, uma amiga do pianista falou - e bem - deu um toque no diretor da semelhança de Almeida com Schubert. E que além de tudo, ele era pianista. De lá mesmo, por telefone, um encontro entre o diretor e o músico foi marcado.
Almeida foi. E ficou um bocado de tempo nas mãos dos maquiadores. ‘‘Não que eu seja realmente parecido com Schubert, mas o trabalho de make up fez com eu ficasse bastante parecido’’- conta o pianista, lembrando que há muito tempo as pessoas apontam tal semelhança. Foram esses e outros detalhes - inclusive o cachê que ele assegura ser muitíssimo bom - é que plantaram a indecisão em aceitar ou não o papel.
Como músico, ele se derrete em elogios a Schubert. ‘‘Ele é um compositor que na forma é clássico, mas que na sonoridade busca o romantismo. O que mais gosto dele é que sua obra sempre me coloca entre o choro e o riso’’- diz. A obra de Schubert é imensa e valiosa. Só em Lieder, pequenas canções com textos filosóficos ou poéticos, ele deixou mais de 600. ‘‘Schubert trabalha muito com a emoção’’- resume Almeida.
CigarroA única experiência - e se arrependimento matasse, ele já teria desencarnado - de ator que Marco Almeida teve foi em 88 quando, na Alemanha, aceitou o convite para gravar um comercial de cigarros. A marca: Danemann. ‘‘Fiquei fascinado com o cachê e fiz o comercial’’- admite o pianista. Acontece que a repercussão foi a pior possível.
Afinal, onde é que já se viu um músico erudito fazendo apologias ao tabagismo? ‘‘Tudo era uma grande mentira porque nunca fumei. Mas assim mesmo alguns concertos meus foram cancelados. É que os alemães acharan que através do comercial eu encontrei uma maneira muito fácil de circular o meu nome’’- diz ele. ‘‘Foi uma experiência terrível’’- completa. É por essas e outras que ele vem pensando e repensando bem se aceita ou não fazer Schubert. Se bem que encarnar um gênio é muito mais saudável e coerente para ele que ficar baforando fumaça e, cinicamente, dizer: ‘‘fume Danemann’’.

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