Quando a Guerra Civil pela independência de Angola terminou, a vida no país não se tornou tão fácil quanto se esperava. Os quatro milhões de habitantes que vivem na capital Luanda pagam caro pela moradia e alimentação. O dólar praticamente virou a moeda oficial, o processo de reconstrução é demorado e a agitação é constante. Para piorar, existe apenas um teatro em toda a cidade, já que outros espaços culturais foram destruídos para serem transformados em estacionamentos e bancos.
É neste cenário que o ator, diretor, autor e jornalista José Mena Abrantes está à frente da companhia Elinga, principal grupo teatral do país há 21 anos. Eles já se apresentaram na Espanha, Portugal, Itália e Moçambique. No Brasil estiveram em 1998, quando mostraram o espetáculo ''Mulato dos Perdidos'', em São Paulo.
Mena Abrantes voltou este ano para apresentar ''Kimpa Vita - A Profetisa Ardente'' na Mostra Fringe do Festival de Curitiba. Para viajar utilizou parte dos US$ 30 mil recebidos no ano passado no Prêmio Nacional Cultura e Arte. Se não fosse por essa verba dificilmente ele viria, já que a bilheteria do espetáculo não cobre nem metade dos custos de produção. A equipe é grande e conta com nove atores, além dos músicos e técnicos.
No Brasil o diretor é mais conhecido no Nordeste. Duas companhias de Salvador já montaram o espetáculo ''Amêsa'', escrito por ele. Uma delas chegou a se apresentar em Angola. Outro grupo africano também montou o mesmo texto, mas foi em Curitiba que Mena Abrantes realmente se emocionou com a montagem da Companhia de Teatro Gente. Quem viu a apresentação no mesmo dia que o autor, pôde conferir uma cena que ficará guardada na história do Festival. Ao término do espetáculo Mena Abrantes subiu no palco e, chorando muito, abraçou a protagonista Heloisa Jorge.
Ele considera uma honra ter os textos montados por diferentes companhias e diz nunca ter cobrado pelos direitos autorais. ''Eu poderia até pagar para as companhias trabalharem com textos meus'', brinca.
®MDBO¯ Guerra
®MDNM¯ Dirigir uma companhia de teatro já não é fácil em tempos de paz, quanto mais durante conflitos. Durante a Guerra Civil pela independência de Angola, os atores da Elinga ensaiavam poucas vezes, pois cortavam a energia muito cedo. Em algumas ocasiões chegaram a realizar encontros à luz de velas. Além disso, os ensaios não iam até tarde pois havia perigo de andar na rua em determinados horários.
A guerra acabou mas os problemas não. É difícil conseguir apoio para realizar os projetos e até para manter em pé a casa onde realizam os espetáculos. ''Somos o único grupo de teatro de Angola que possui um local específico para nossos encontros e apresentações. Agora querem destruir a casa para fazer um estacionamento'', reclama Mena Abrantes. Eles reuniram um abaixo-assinado para tentar reverter o decreto.
O tema principal das peças é a retomada da história de Angola e a tradição do povo local. Ele aproveita a vocação para a teatralidade e considera que o teatro angolano afirma-se como uma das expressões mais ricas do patrimônio cultural africano.
Mena Abrantes é assessor de imprensa do presidente de Angola há mais de 20 anos. Mesmo assim, não anula a crítica política em seus textos.
A Companhia de Teatro Gente foi convidada por Mena Abrantes para apresentar ''Amêsa'' na Angola. Ainda é possível assistir ao espetáculo hoje, na Sala Londrina (Memorial de Curitiba), às 12 horas.

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