No ar, tudo parece fácil. Mas ter uma criança em um set de gravações demanda atenção, cuidados e muita paciência por parte da equipe. Desde horários restritos à imprevisibilidade diante da imaturidade, vários são os obstáculos quando se opta por utilizar, na televisão, elenco infantil. Principalmente se a maior parte dos atores está em uma faixa etária tão baixa.
"Não tínhamos noção de como era até fazermos 'Carrossel'. Normalmente, lidar com elas é tranquilo. Já com os pais, nem sempre. Passamos por problemas de adaptação que, agora, em 'Chiquititas', consertamos. Temos hora certa para as gravações e todos chegam com texto decorado", entrega Ricardo Mantoanelli, que divide com Reynaldo Boury a direção do remake de "Chiquititas", que o SBT estreia em julho.
As dificuldades são tantas que, algumas vezes, é preferível diminuir a participação de personagens infantis nos programas. Ou até mesmo esquecer que eles existem. Prova disso é que o precoce Florianinho, vivido por Vinícius Moreno em "A Grande Família", só ganhou destaque no seriado de humor ao se tornar adolescente. Antes, chegava a passar episódios sendo apenas citado. E, quando bebê, em várias cenas, não passava de um boneco em um carrinho. "Negligenciamos a existência dele durante um bom tempo por uma questão estratégica mesmo. É uma situação complicada por se tratarem de dificuldades que fogem ao nosso controle. Na fase de pré-adolescente já é completamente diferente", justifica o diretor-geral, Luiz Felipe Sá.
De fato, dividir o estúdio com um bebê tem lá suas particularidades. Isis Valverde, por exemplo, já interpretou uma mãe em "Ti-Ti-Ti", na pele da mocinha Marcela. E lembra com gargalhadas o dia em que estava segurando o neném que vivia seu filho e, de repente, sentiu que ele sujava a fralda. Isso sem contar com as sequências em que, no meio de uma fala dela, a criança começava a emitir sons, fazendo com que todos tivessem de improvisar.
Só que, muitas vezes, são essas surpresas que atraem algumas produções. "Temos muito tempo de gravação. Com isso, nosso maior desafio é manter as crianças atentas ao que está acontecendo. Contamos com animadores e uma série de atividades, mas a imprevisibilidade é, no nosso caso, um grande ponto a favor", avalia Rozane Braga, produtora do "ABZ do Ziraldo", coprodução infantil da TV Brasil com a FBL Produções, que conta com dezenas de crianças na plateia que interagem com os convidados.
Quando dirige as cenas de "Detetives do Prédio Azul", seriado infantil do canal a cabo Gloob, André Pellenz não passa por problemas em relação à imaturidade de seu elenco principal, composto por crianças de 11 a 13 anos. Na verdade, sua maior dificuldade é outra, que é poucas vezes lembrada por quem trabalha com estudantes. Apesar de terem um ritmo de gravações mais leve que atores mais velhos, eles enfrentam uma rotina na maioria das vezes bem mais pesada. "É muito fácil a gente pensar que está tudo bem porque o trabalho começa às 14 horas. Mas não posso esquecer que é assim porque eles madrugaram, passaram a manhã inteira estudando e, quando nos encontram, já estão com parte da energia do dia gasta", alerta Pellenz, que grava os 26 episódios de cada temporada do programa em aproximadamente um mês e meio, fazendo uma média de um capítulo por dia. E, mesmo diante das dificuldades, assume que o segmento infantil é um dos que mais lhe agradam.
Acostumado ao universo infantil, Marcelo Tas é outro que não recusa um bom trabalho com crianças. Mas foi com o "Conversa de Gente Grande", que a Band produziu e exibiu mas, atualmente, tem seu retorno ainda incerto à grade da emissora, que Tas experimentou, de fato, contracenar com crianças. E, garante, foi uma experiência única e que, não fosse pela agenda cheia de outros compromissos, não abriria mão se fosse uma decisão unicamente dele. "Trabalhei com crianças a partir de três anos. Elas falam o que querem e com uma sinceridade incrível sobre os temas mais adultos. Achei que pudesse ensinar muito a elas, mas fui eu quem aprendeu ali", diz.

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