DOS JORNAIS PARA O LIVRO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de outubro de 2001
Nelson Sato<br> De Londrina 
O londrinense Mário Bortolotto é uma máquina de produzir textos. Prolífico como dramaturgo, já publicou romance policial e coletâneas de poemas e contos. Agora mostra sua veia de cronista pop. O livro ''Gutemberg Blues'', que ele lança hoje a partir de 20h30 na Biblioteca Pública, é uma compilação de textos publicados em jornais entre 1984 e 1992.
A maioria publicados na Folha 2. Música, cinema e literatura são os temas recorrentes do autor, cuja linguagem mescla prosa e poesia em blocos carregados de delírio, fúria e ironia. Andy Warhol, Jack Kerouac, Lou Reed, Charles Bukowski, Tom Waits, Allen Ginsberg, Bob Marley e Arnaldo Baptista e Lawrence Ferlinguetti são alguns dos personagens que desfilam pelas páginas do volume - uma vitrine de sua teia de referências.
O título foi emprestado de uma peça de teatro assistida no começo dos anos 80 no Festival de Teatro de Londrina. ''Era uma peça muito legal do Grupo Blusão Azul de Curitiba. Foi a primeira vez que eu saquei que dava pra fazer teatro com pique de shows de rock and roll'' - revela ele. ''Gutemberg Blues'' é um lançamento da Atrito Art Editorial, que contou com patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Midiograf e Hotel Coroados. O lançamento faz parte do projeto O Fim da Literatura e integra a comemoração dos 50 anos da Biblioteca Pública.
Como foi rever esses textos? Você fez alterações ou deixou-os na forma original como foram publicados nos jornais?
Fiz questão de deixá-los intactos. Não mudei nada. Há inclusive textos ocasionais, com referências a datas de eventos.
Os textos do livro foram publicados entre 1984 e 1992. Na introdução, você diz que seu ídolo na imprensa cultural da época era Pepe Escobar (hoje correspondente internacional da revista Época e do canal de notícias Globo News). Diz também que apreciava trabalhos de outros jornalistas que escreviam com prazer, de maneira informal e com um quê de polêmica. Esse tipo de texto ainda circula nos cadernos culturais?
Circula cada vez menos. Existem bons jornalistas, mas os jornais não dão espaço para textos e temas diferenciados. Antes você podia escrever sobre determinado assunto sem estar preso a uma pauta. Hoje tudo tem que ter um pretexto. É o lançamento do disco, é o lançamento do livro... Não dá mais para escrever, por exemplo, sobre Jean Genet pelo simples motivo de gostar do escritor. O mesmo em relação ao King Crinson. Hoje em dia, qualquer tema tem que estar vinculado a um acontecimento. Não se escreve mais por tesão.
Esse foi o motivo de você parar de escrever em jornais?
É que não existe mais espaço. Essa foi a razão do Pepe Escobar ter saído da Folha de S.Paulo. Eu não sou jornalista, não conseguiria escrever com pauta. Eu só escrevo com prazer. Sempre achei divertido publicar textos em jornais. O problema é que vão achatando, reduzindo seu espaço à medida que você vai incomodando e criando polêmicas.
Alguns textos foram garimpados de uma coluna de música que você assinava na Folha de Londrina/ Folha do Paraná. Como era a repercussão na época?
Era divertido. Eu recebia muitas cartas de leitores reclamando de meus constantes ataques às duplas sertanejas. Cheguei a publicar a íntegra de uma carta dessas. O pessoal da MPB também se queixava argumentando que eu só escrevia sobre rock. Não era bem assim, mas eu procurava provocá-los. O pessoal da MPB era muito tranquilo.
No livro, há textos sobre Jack Kerouac, Charles Bukowski, Lawrence Ferlinguetti, Gary Snyder, Allen Ginsberg e vários outros autores e artistas de seu universo de referências. Ao reuní-los em livro, ficou parecendo uma autobiografia intelectual.
O livro é, na verdade, uma série de homenagens a meus ídolos. Todos estão ali, todos os caras que de alguma maneira fizeram a minha cabeça. No teatro, muita gente costuma me perguntar quais são as minhas referências. Agora, com o livro publicado, elas vão saber.


