Dos aplausos à loucura
A última vez que o ator Luís Melo esteve em Curitiba foi com o monólogo Sonata Kreutzer, de Tolstoi, em novembro de 1996, no antigo teatro do Bamerindus. Hoje ele apresenta, em estréia nacional no Teatro da Reitoria, um novo monólogo - Nijinsky. O espetáculo, dirigido por Rossella Terranova, baseia-se nos cadernos que o bailarino escreveu, a caminho da loucura.
O astro, que viveu às luzes da glória como um dos gênios da dança, morreu num hospício, longe dos palcos, da platéia perfumada, do brilho. Tinha ao lado a sua mulher, também ex-bailarina.
Não é essa trajetória que Melo coloca em cena, mas a tortura do artista falando da arte, daquilo que ela representa para ele, a solidão que o atinge. Suas reflexões nem sempre organizadas, seguindo uma linha lógica de raciocínio, ficaram para a posteridade em cadernos que Nijinsky dividiu sob os títulos de Vida, Morte, Sentimento.
Há muito de delicadeza no universo das imagens, das sensações, dos insights de criação. É por este lado de Nijinsky que quero trabalhar, disse o ator para a Folha Dois, em meio aos ensaios, algumas semanas atrás. Segundo ele o espetáculo permite um passeio pelo lúdico, além de um mergulho no processo de criação.
Em seus delírios, antes que a alienação o tomasse por completo, o bailarino discorria sobre os mais variados temas, mostrando influências de Tolstoi e Dostoievski. Acreditando-se santificado, saía às ruas pregando a cristandade. Para impedi-lo do ridículo, os amigos traziam-no de volta para casa. Passou dois meses e meio escrevendo seus cadernos e ao final desse tempo, foi internado.
Toda essa paixão serve também como gás para o talento de um dos mais festejados atores da atualidade, o curitibano Luís Melo. Uso Nijinski para falar de todos os outsiders, esses homens maravilhosos que nos servem de ponto de inspiração. Trabalho com o bufão, o palhaço de Deus, comentou.
O que vai para o palco em Nijinsky não é o mito, mas o homem. O interesse do ator em todo este processo de viver o artista russo é ir no mais profundo de uma alma em conflito. Para ele o desejo do bailarino era mostrar ao público a dor da criação, essa viagem, o êxtase que é muito mais que a droga.
Nijinsky, com Luís Melo. Direção de Rossella Terranova. Hoje, às 21h30 e amanhã, às 20 horas, no Teatro da Reitoria, dentro da mostra oficial do 8º Festival de Teatro de Curitiba. Ingresso: R$ 20,00.Marco Terranova/DivulgaçãoLuís Melo em Nijinski: retrato humano de um dos maiores gênios da dança que morreu num hospícioZeca Corrêa Leite





