Dos anos 70 aos 70 anos
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quarta-feira, 23 de outubro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A família de Ziraldo está preparando uma festa surpresa para o cartunista que vai reunir mais de 300 pessoas. Apesar do número de convidados, Ziraldo garante que será um evento ''intimista''. Tudo para comemorar os 70 anos do ''pai'' do Menino Maluquinho, a Turma do Pererê e outros personagens que fazem a festa de crianças e adultos brasileiros há mais de quatro décadas.
Quando Ziraldo lembra da idade que completa hoje, fala com seu sotaque mineiro: ''Ai meu Deus, ao mesmo tempo que é fantástico chegar até aqui, passou depressa demais. Fico besta em lembrar das coisas que fiz, mas ainda tem muito para fazer''.
Ele faz questão de deixar claro que não tem nenhuma frustração, mas ainda pretende viabilizar diversos projetos de vida, entre eles dirigir um filme. Conta, por exemplo, que algumas cenas do filme ''Menino Maluquinho'', dirigido por Helvécio Ratton, teria feito diferente. ''Olhando eu fico aflito, queria que fosse de outro jeito''. O desejo de filmar, diz, vem da própria experiência de vida. ''Sou um narrador com imagens, A charge é uma narrativa'', analisa comparando a prática com a do ''cara do cinema''.
Mas por enquanto, o desejo de estar frente a uma produção pode ter que esperar, tamanho são os projetos desse artista multicultural. Ele dá prioridade, por exemplo, a viabilizar economicamente o Pasquim, jornal que surgiu depois da morte quase que por assassinato da revista Bundas. Para quem não lembra ou não leu (e não sabe o que está perdendo), a Bundas era editada por Ziraldo com contexto político e bem-humorado, mas acima de tudo, inteligente. Enfim, uma raridade que se foi por causa da falta de recursos.
Para Ziraldo, no entanto, o problema foi além. ''Eu comecei com uma brincadeira, mas não sou um brincalhão. As pessoas compravam a revista imaginando que iriam encontrar outra coisa, mas o conteúdo era sério'', diz. Ele não quer que o mesmo aconteça com o Pasquim, jornal que assina como diretor superintendente, em companhia do editor chefe Zélio e do diretor adjunto Luiz Pimentel desde fevereiro deste ano. Na verdade, essa é uma tentativa, senão de reeditar a primeira versão do jornal, publicada na época da ditadura militar, de provocar a reflexão dos leitores.
O cartunista refuta a maneira como são tratados os jornais impressos no Brasil atualmente. ''Os jornais estão dormindo com o inimigo, não são atrativos, não formam um público e, além disso, falam apenas de computador.'' Apesar disso, salienta que ainda há muitas lacunas para o veículo preencher. ''Não vamos fechar a fábrica de papel porque as pessoas estão trabalhando com o computador'', compara.
O Pasquim e a Bundas fazem parte de um trabalho mais voltado para adultos, ou para a ''intelectualidade'', digamos assim, mas Ziraldo não deixa de lado o seus projetos infantis. Pretende, por exemplo, editar toda uma coleção inédita do Pererê, o personagem mais brasileiro que ele desenvolveu, ao longo de 20 edições. A primeira já saiu. ''Mas ainda tem mais de 2,5 mil histórias que ninguém conhece'', avisa.
Os outros projetos de Ziraldo estão relacionados ao desenho. ''Queria trabalhar mais com a cor'. Não tive tempo de dominar a técnica'', revela. Também pretende, simplesmente, desenhar mais. Fala, sem modéstia, que se não tivesse parado de desenhar tanto na década de 80, hoje seria o ''melhor desenhista do mundo''.
Ziraldo, que tem esse nome esquisito por causa de uma junção do nome dos pais Zizinha e Geraldo começou a ''fazer e aparecer'' nos 60 com o lançamento da primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor: A Turma do Pererê. Nos anos seguintes também lançou quadrinhos para adultos, como a Supermãe e Mineirinho - o Comequieto.
Em 1969, ele publicou o seu primeiro livro infantil,''Flicts''. A partir do final da década de 70 concentrou-se na produção de livros para crianças, e em 1980 lançou ''O Menino Maluquinho'', um dos maiores fenômenos editoriais no Brasil e que já passou da 70 edição. O livro já foi adaptado para teatro, quadrinhos, ópera infantil, videogame, internet e cinema.
''O Menino Maluquinho'' é uma espécie de retrato das crianças, sejam elas brasileiras ou não. Faz parte do imaginário e da experiência do cartunista, assim como quase todos os seus livros infantis. O recente ''A Menina Nina'', por exemplo surgiu quando a mulher de Ziraldo morreu e a neta dele passou a lhe perguntar sobre as questões que envolviam a morte. Ziraldo transformou a dor em livro e desenho.
Também produziu a história ''O menino e seu amigo'', que narra a amizade de um garoto com o avô. O livro é inspirado na relação do próprio Ziraldo com o avô. ''Sou o cara que mais teve avô no mundo'', brinca. O avô dele morreu há duas décadas, quando Ziraldo tinha 50 anos.
Ele ainda não tem planos para uma próxima história. Por enquanto, diz, quer continuar apenas fazendo o seu trabalho. ''E fazendo bem feito, sem medo e com muito cuidado, porque senão não adianta nem fazer'', finaliza.


