Doris Lessing morre aos 94 anos
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terça-feira, 19 de novembro de 2013
João Luiz Sampaio<br> Agência Estado 
São Paulo - Doris Lessing chegava de viagem e, ao descer do táxi na porta de sua casa, no norte de Londres, demorou a entender o que aqueles fotógrafos, cinegrafistas e repórteres faziam ali. Foi um deles que lhe deu a notícia. Ela acabara de ganhar o Prêmio Nobel. Algum comentário? "Oh, Cristo... Eu realmente não me importo", disse. "Bem, eu não sei. O que vocês acham que eu deveria dizer?" Mais tarde, brincaria: "Estou com 88 anos e eles não podem premiar alguém que morreu. Então eles provavelmente acharam melhor me dar logo o prêmio antes que eu me vá".
Doris Lessing "se foi" na madrugada de domingo, aos 94. Segundo seus editores, morreu em casa, tranquila. Ao longo da carreira, escreveu mais de 50 livros - contos, memórias, romances e volumes de ficção científica. Em todos, elegeu como temas a crítica ao poder, o preconceito racial, os direitos das mulheres e uma investigação da psique humana. Ao justificar sua escolha, a Academia Sueca disse que sua escrita foi marcada "pelo ceticismo e poder visionário", além do modo contundente como lidava com as questões que abordava. Contundência que, ao longo da vida, também lhe renderia polêmicas, seja nas críticas ao preconceito racial na África, nos anos 1950 e 1960, seja em comentários a episódios recentes, como os ataques de 11 de setembro, que ela classificou como "não tão terríveis".
A escritora nasceu na Pérsia, hoje Irã, mas foi criada na Rodésia do Sul, hoje Zimbábue. Após uma infância povoada pela leitura de autores como Charles Dickens e Rudyard Kipling, casou-se com 19 anos. Mas, pouco depois, deixaria o primeiro marido e iniciaria um romance com Gottfried Lessing, que conheceu no âmbito do Left Book Club, grupo de comunistas e socialistas ligados à literatura. Ao completar 30 anos, no entanto, e perceber-se desiludida com o movimento comunista, mudou-se para a Inglaterra com o filho mais velho. E foi já em Londres que iniciou sua carreira literária.
Em 1949, lançou "A Canção da Relva", livro de caráter autobiográfico em que fala de seus pais, fazendeiros na África. Foi com seu quarto livro, no entanto, que definiria o tom ácido e seco de sua escrita - "O Carnê Dourado", em que, ao narrar a história de Anna Wulf, tocava não apenas na condição das mulheres como fazia críticas ao partido comunista britânico. "Lessing quebrou as convenções sociais em que foi educada para retratar uma espécie de crise nervosa de uma geração cuja marca seria a desintegração", disse neste domingo a acadêmica inglesa Lorna Sage à agência Reuters.
Em uma entrevista concedida pouco depois de ganhar o Nobel, Lessing relembrou o momento em que resolveu mudar-se para a Inglaterra - e respondeu as críticas, que a acompanharam a vida toda, por ter deixado os dois primeiros filhos para trás. "Eu não me sinto culpada, essa é a coisa difícil. Porque se eu não tivesse saído, sei o que teria me acontecido. Teria sofrido um tremendo colapso nervoso e me tornaria alcoólatra. Foi uma coisa terrível de fazer e, ainda assim, a coisa certa. Mas, veja, meus dois primeiros filhos foram criados pelo pai e uma segunda esposa. Eles não foram exatamente abandonados numa porta como alguns fazem parecer."
Nos anos 1970, ela iniciou a publicação da série de ficção científica Canopus, que classificava, na verdade, como "ficção social", ou seja, que tinha o objetivo de, ao falar de outros mundos, refletir sobre a condição do nosso tempo. A série é composta de quatro livros que estão entre seus mais célebres e vendidos - ainda que muitos críticos não concordem com a opinião dos leitores.
Harold Bloom, por exemplo, ao comentar sua escolha para o Nobel, disse que se tratava apenas de "correção política". "Se, no início de sua carreira, ela tinha algumas qualidades admiráveis, sua obra posterior é ilegível: ficção científica de quarta categoria", disse. Questionada sobre sua posição, ela foi implacável, como de costume: "Harold quem? Bloom? O que ele quis dizer com correção política? Talvez que era hora de eles premiarem uma mulher?"
Nos anos 1980, de qualquer forma, em livros como "A Terrorista", "The Wind Blows Away" e "The Fifth Child", ela voltaria a temas como o ativismo político, a indiferença da sociedade aos horrores da guerra e a desintegração nas relações sociais. Em "Sonho Mais Doce", publicado nos anos 1990, faria críticas à esquerda e ao movimento feminista, além de atacar o comportamento de pacifistas e organizações humanitárias.
Ela se ressentia do uso que, dizia, as pessoas faziam de sua obra, "retalhada e frequentemente tirada de contexto". "O feminismo sempre foi dirigido por mulheres e para mulheres. Os homens sempre diziam: muito bem, prossigam e lutem por suas coisas. E as mulheres continuam a fazê-lo, voluntariamente. Mas o movimento perdeu uma grande oportunidade por ser tão estreito", disse em 1987, quando esteve no Brasil. Ao mesmo tempo, se dizia contente em saber do papel que seus livros tinham na vida das pessoas. "É maravilhoso. Conheci garotas que dizem Minha mãe me disse para ler você, e minha avó também. Isso é uma coisa e tanto, não é?"


