Arquivo FolhaElias Andreato: ‘‘Os motivos que angustiam o pintor e o poeta são diversos, mas a essência do sofrimento é a mesma’’Da galeria de personagens marcantes que o ator paranaense Elias Andreato tem levado ao palco, soma-se agora a figura apaixonada e dolorida do poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1890) condenado a dois anos de trabalhos forçados, entre 1885 a 1887, por ter-se envolvido com um rapaz da corte, Alfred Douglas, de 21 anos.
Acaba de estrear em São Paulo ‘‘Oscar Wilde’’, no Stúdio Cristina Mutarelli, onde, nas noites de sexta-feira a domingo, uma platéia exclusivíssima, formada por 15 pessoas, se comove com a apresentação. ‘‘O espetáculo é apaixonante’’, conta o ator. ‘‘Tudo na peça é lindo: o cenário, a luz, o figurino, a direção’’.
A exemplo do que aconteceu com ‘‘Van Gogh’’, criado a partir de cartas que o pintor remeteu ao irmão, em ‘‘Oscar Wilde’’ o roteiro tem por base os livros ‘‘De Profundis’’ e ‘‘A Alma do Homem Sob o Socialismo’’, ambos escritos pelo artista nos tempos de prisão.
‘‘De Profundis’’ é um longo diálogo do escritor com o amante. Foi o livro que melhor serviu ao espetáculo, pois ali o autor aprofunda-se na dor, na solidão, disseca os escândalos (especialmente aqueles promovidos pela imprensa, cujo sensacionalismo Wilde compara às torturas da Idade Média) e elege o artista como tábua de salvação.
Numa das últimas falas da peça, Wilde desabafa:
- As únicas pessoas com as quais gostaria de conviver de agora em diante, seria com os artistas. Eles conhecem a beleza e o sofrimento. Ninguém mais me interessa.
Mesma vereda Não só o discurso, mas também a caminhada em direção às almas sensíveis dos artistas fascinam o ator Elias Andreato. Em ‘‘Van Gogh’’ havia o confronto da beleza com o desespero da solidão. ‘‘Oscar Wilde’’ segue por vereda idêntica. Os motivos que angustiam o pintor e o poeta são diversos, mas a essência do sofrimento é a mesma.
O mesmo pode-se dizer da teimosia em ver e sentir ao longe a beleza, apesar da escuridão em que mergulharam suas existências. ‘‘As pessoas gostam de ouvir o que Wilde tem a dizer. Elas saem estimuladas, têm vontade de fazer coisas. Ficam muito emocionadas’’, conta o ator.
Há oito anos Andreato queria escrever sobre o criador de ‘‘O Retrato de Dorian Gray’’, que recebeu a dura pena por indecência e sodomia. O primeiro roteiro, de 1988, era ainda um primeiro estudo que precisava de melhor acabamento. Porém, atendendo a compromissos mais urgentes, o autor deixou-o à margem para, finalmente, em 1996 colocar um ponto final no texto.
Em novembro, a diretora Vivien Buckup deu início aos ensaios. Com a peça pronta para estrear, algo estranho passou a acontecer - havia sempre um motivo para atrasar a temporada. ‘‘Oscar Wilde’’ vinha sendo assistida por amigos em sessões fechadas, até que em abril uma americana de passagem por São Paulo comentou que neste mês de maio estariam completando os 100 anos da prisão de Wilde. A peça estreou no dia 2.
Elias Andreato conta que quando deu por encerrado o roteiro, anotou no papel uma visão que lhe atingiu em cheio nesse momento - a imagem de São Sebastião torturado por flexas fincadas em seu corpo.
Recentemente, folheando um livro sobre Oscar Wilde, teve a atenção despertada para um trecho onde o biógrafo comentava que o escritor gostava muito do desenho de São Sebastião flexado. Misteriosas e afetivas coincidências.
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