Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Em ‘‘História das Crianças no Brasil’’, obra organizada por Mary Del Priore, historiadores traçam um painel da infância no Brasil, do descobrimento aos dias atuais
Parece comum nos dias de hoje considerar que a exploração do trabalho infantil, a desnutrição, a violência sexual, a morte prematura, os espancamentos familiares, a delinquência e a falta de escolaridade sejam fatores que afetam somente as crianças brasileiras contemporâneas. Mas o livro ‘‘História das Crianças no Brasil’’, que acaba de ser lançado pela Editora Contexto, oferece dados para a constatação de que não se trata de problemas recentes, mas sim crônicos, muito mais extensos do que se pensa.
As caravelas lusitanas que aportaram em solo brasileiro na época do descobrimento eram compostas basicamente de homens adultos. Uma pequena parcela era formada por crianças, grumetes e pagens. Crianças que eram violentadas sexualmente por marujos e comandantes, mal alimentadas e sujeitas a todos os tipos de desrespeito.
Grande parte das crianças que chegaram ao Brasil no século 16, chegaram humilhadas. A infância no País nasceu sob o signo da humilhação. Na realidade, na época, não existia propriamente um conceito de infância. A expectativa de vida das crianças portuguesas girava em torno dos 14 anos. Metade das crianças nascidas vivas, morriam antes de completarem 7 anos de idade. Este quadro se estendia por toda a Europa. As crianças eram consideradas apenas força de trabalho que deveria ser exaurida enquanto durasse suas vidas.
O alto índice de mortalidade infantil alimentava a necessidade do desapego dos familiares em relação às crianças. No universo adulto, a infância não tinha espaço, para as crianças só havia duas opções: se adaptar ou morrer. A morte não era encarada como tragédia: os pequenos que morriam eram simplesmente substituídos por outros.
Somente no século 19 a infância passa a ser considerada uma fase da vida, assim como a adolescência. Ou seja, a idéia que temos hoje da infância e adolescência é extremamente recente na história do homem ocidental.
Organizado pela historiadora Mary Del Priore, ‘‘História das Crianças no Brasil’’ reúne 15 textos de 18 pesquisadores brasileiros procurando reconstituir a vida cotidiana das crianças brasileiras, da colonização portuguesa aos canaviais pernambucanos dos dias de hoje. Nas palavras de Mary Del Priore, o objetivo da obra é ‘‘resgatar a história da criança brasileira não apenas enfrentando um passado e um presente cheio de tragédias anônimas, como a venda de crianças escravas, a sobrevida nas instituições, as violências sexuais, a exploração de sua mão-de-obra, mas tentando também perceber, para além do lado escuro, a história da criança simplesmente criança, as formas de sua existência cotidiana, as mutações de seus vínculos sociais e afetivos, a sua aprendizagem da vida por meio de uma história que, no mais das vezes, não nos é contada diretamente por ela.’’
Os textos abordam um amplo leque: a vida das primeiras crianças que chegaram ao Brasil, as escolas jesuítas, o cotidiano das crianças livres, o dia-a-dia das crianças escravas, as crianças enviadas à Guerra do Paraguai, a criminalidade infantil, crianças operárias na industrialização da cidade de São Paulo, a infância na Amazônia, a origem das instituições para crianças carentes e infratoras, o trabalho de crianças e adolescentes nos canaviais, etc.
Levando-se em conta a vastidão do tema, bem como os restritos registros historiográficos, ‘‘História das Crianças no Brasil’’ não chega a ser uma obra completa, mas representa um verdadeiro marco inicial de estudos sobre o tema. Até mesmo porque a abordagem da ‘‘vida privada brasileira’’ é um recorte recente nas mãos dos historiadores brasileiros.
Apesar de todo afunilamento da infância das crianças brasileira provocada pela miséria e violência, os elementos lúdicos sempre constituíram uma espécie de reserva ecológica de sobrevivência universo infantil. Elementos que, ao lado da afetividade, são vislumbrados pelos autores de ‘‘História das Crianças no Brasil’’.
• História das Crianças no Brasil – organizado por Mary Del Priore, Editora Contexto, textos de Fábio Pestana Ramos, Rafael Chambouleyron, Mary Del Priore, Julita Scarano, Ana Maria Mauad, José Roberto de Góes, Manolo Florentino, Renato Pinto Venancio, Marco Antonio Cabral dos Santos, Raquel Zumbano Altman, Esmeralda Blanco Bolsonaro de Moura, Martha Abreu, Aldrin Moura de Figueiredo, Edson Passetti, Ana Dourado, Christine Dabat e Teresa Corrêa de Araújo, 445 páginas, R$ 54,00.

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