Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
O arquiteto Marcelo e a artista plástica Fernanda formam um belo casal. Bem postos na vida, bonitos, têm tudo para levar uma existência estável, sem tumultos. Assim transcorre a vida deles, até o dia em que Marcelo fica sabendo, através de uma amiga, que Fernanda envolveu-se no passado com um amigo em comum. É um comentário sem importância, mas a serenidade do moço quebra-se nesse instante. Ruiu o cristal da confiança e nada mais será o mesmo.
O nó na alma de uma pessoa: essa é a questão central do filme média-metragem de Luciano Coelho, ‘‘O Fim do Ciúme’’, baseado num conto de Proust, estrelado por Marcelo Munhoz e Fernanda Farah, que está em fase de pós-produção. Poderá chegar às telas ainda no primeiro semestre deste ano, se o andamento dos trabalhos não for prejudicado pela falta de dinheiro.
Orçado em R$ 80 mil, o projeto chegou a R$ 120 mil. O estouro das finanças deveu-se por dois motivos: o ‘‘leve aumento do filme’’, planejado inicialmente para ser um curta-metragem, e principalmente pela desvalorização do real em relação ao dólar. Todo material utilizado em cinema é importado. ‘‘Vamos buscar recursos a fundo perdido’’, explica o diretor.
Produzido pela Celluloid Cine Vídeo, ‘‘O Fim do Ciúme’’ tem como co-roteirista, junto de Coelho, o diretor Edson Bueno (confesso apaixonado da arte, apesar de até hoje ter-se dedicado somente ao teatro). Outro íntimo dos palcos que adentra no mundo do celulóide é o ator Marcelo Munhoz. Foi uma revelação para a equipe.
Luciano Coelho afirma que Marcelo é um grande talento; a mesma opinião emitida por Fernando Severo que neste trabalho respondeu pela produção executiva. Para o ator, que ganhou o papel através de teste, a experiência foi marcante. A primeira coisa que teve de aprender: adaptar-se ao olho da câmara que tudo registra e amplia, e esquecer o gestual do teatro. Os primeiros ensaios serviram para definir os territórios.
‘‘O cinema é mais milimétrico na atuação’’, explica. E também mais exato – qualquer deslize a imagem mostra aquilo escancarado. O personagem que ele interpreta é rico em tonalidades emocionais – ao mesmo tempo que se mostra uma pessoa bem resolvida, deixa uma brecha aberta no peito, que é por onde o pesadelo dá início ao inferno.
O diretor Luciano Coelho tem o cuidado de ouvir a equipe, e esse detalhe contou muito para Munhoz. ‘‘A gente conversou bastante e isso foi muito legal. O personagem não surgiu de forma acabada; ele foi sendo criado depois de muita conversa’’.
Na opinião de Coelho tanto o ator como a atriz estão mais para as telas que para os palcos: ‘‘Tem gente que é feita para teatro, outras para o cinema. Sei disso porque percebo quando a câmara gosta delas. Marcelo e Fernanda são dois exemplos disso’’. Concluídos os trabalhos de filmagens, ele se sente ‘‘feliz’’ com a empreitada, porque envolveu uma equipe técnica feita quase 100% por paranaenses.
‘‘Não devemos nada aos de fora. Temos valores suficientes e espero que mais filmes sejam feitos com gente daqui’’, diz o cineasta. Entre esses valores está a diretora de fotografia, Helena Passos, hoje um dos nomes importantes no Rio de Janeiro. Um de seus trabalhos foi a série de ‘‘A Justiceira’’, na TV Globo, além de comerciais para o Shopping Mueller.
Luciano Coelho lamenta a falta de reconhecimento do governo local aos talentos da terra. Há um fascínio pelos artistas de São Paulo e Rio, em detrimento aos técnicos e artistas do Paraná. Desde que houvesse maiores incentivos para a prata da casa, seriam propiciadas novas produções que iriam gerar evolução natural do setor.
Entende o diretor que com um programa de incentivo ao cinema seria possível até mesmo inverter o processo histórico de se importar talentos de fora em detrimento daqueles que lutam a duras penas no Paraná. ‘‘Poderíamos até mesmo exportar o que é nosso’’, avalia. Coelho é enfático: o paranaense em geral, e especialmente o curitibano, tem medo de se olhar e se valorizar. ‘‘Nada melhor que a arte para que possamos nos descobrir’’.
Porém, é preciso que haja apoio oficial, ‘‘apenas um primeiro impulso’’, porque até agora os artistas correm atrás da sensibilidade dos empresários. ‘‘Não podemos contar só com a iniciativa privada’’. Os R$ 80 mil foram levantados junto ao curso Positivo, Embratel, Opus & Múltipla, MCA – Arquitetura e Design.Baseado num conto de Marcel Proust, ‘‘O Fim do Ciúme’’ deve chegar às telas no primeiro semestre. A direção é do curitibano Luciano Coelho
Claudio Pinheiro/DivulgaçãoCena de ‘‘O Fim do Ciúme’’: filme gira em torno da fragilidade da alma das pessoasClaudio Pinheiro/DivulgaçãoOs atores Marcelo Munhoz e Fernanda Farah interpretam um casal cujo relacionamento é abalado pela quebra de confiança

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