Apreciador da arte, Scipione Borghese não tinha escrúpulos para ampliar sua inestimável coleção. Era capaz de empregar os mais capciosos estratagemas para obter o quadro que queria. Uma vez, mandou prender o pintor Domenichino por este ter-se recusado a dar-lhe a tela ‘‘Caçada de Diana’’, feito sob encomenda para o rival Pietro Aldobrandini. Dias depois, a pintura estava em suas mãos.
Em outra ocasião, preparou uma armadilha para o pintor Giusepe de Cesari, dono do primeiro ateliê que empregou Caravaggio em Roma. Obcecado em conseguir alguns de seus trabalhos, o cardeal acusou-o de porte ilegal de armas tomando como fiança 107 quadros. De outra feita, o insaciável colecionador apropriou-se de um dos altares da Basílica de São Pedro por duvidosas ‘‘razões de decoro’’, levando junto a ‘‘Madonna da Serpente’’, de Caravaggio.
Célebre também foi a vez em que surrupiou na calada da noite a tela ‘‘Deposição’’, pintada por Rafaello, da igreja de São Francisco, em Perugia. O episódio provocou um levante polular na manhã seguinte, logo contido pelo próprio papa, que manifestou-se a favor do sobrinho. Os queixosos tiveram que se contentar com uma cópia da obra.
A coleção de obras-primas, contudo, não foi construída somente através de pilhagens. Além dos presentes enviados por quem queria conquistar-lhe a benevolência, seu imenso poder facilitava as aquisições a bom preço. Ao longo de trinta anos como colecionador, Scipione Borghese reuniu obras dos mais importantes talentos do país compondo um significativo panorama da arte italiana do qual faziam parte os mestres do Renascimento florentino (Boticelli, Ghirlandaio e Leonardo), os grandes vênetos (Tiziano, Veronese e Lorenzo Lotto), os gênios umbros (Perugino e Raffaello), os maneiristas (Parmigianino, Bronzino, Barocci e Zuccari) e os naturalistas lombardos (Savoldo e Caravaggio).
Paralelamente à audácia de caçador de preciosidades, o cardeal tinha faro para descobrir novos artistas. Foi ele quem lançou o escultor Gianlorenzo Bernini, o artista contemplado com mais ilustrações no livro. Byington analisa seu legado comparando-o a Michelangelo, que ele via como modelo de artista e gênio: ‘‘Ao contrário do mestre renascentista, que contemplava as formas que idealmente a pedra já continha, para Bernini esculpir era transformar a matéria. A fluidez que soube imprimir ao mármore, deixando a luz deslizar pela superfície, fez com que a pedra, assim como o bronze, parecessem sempre aquilo que não eram: carnes macias e tecidos vaporosos’’.
Preocupado com sua coleção, o cardeal estabeleceu um vínculo testamentário que durante quase dois séculos conseguiu impedir sua dispersão. Mas com a ascensão ao poder de Napoleão Bonaparte, a medida foi anulada provocando uma baixa no acervo com a venda a preços irrisórios de 344 peças, que hoje se encontram no Museu do Louvre.
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‘‘Gallleria Borghese – Os Tesouros do Cardeal’’. Editora Berlendis & Vertecchia. Tel. (11) 853-9583. Fax: 853-2344.