Donga não é o autor de "pelo telefone"
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quinta-feira, 14 de agosto de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Clayton BiaggiArley Pereira: O que Donga fez foi registrar a música na Biblioteca NacionalDiz a história oficial que Pelo Telefone foi o primeiro samba gravado no Brasil, em 1917, pela Casa Edison do Rio de Janeiro. De acordo com a mesma versão Ernesto dos Santos, o Donga, seria seu autor. Portanto, nada mais natural que festejar os 80 anos da música cujo ritmo é o que melhor identifica o Brasil. Comemorações até podem acontecer, mas um lançamento da Editora Globo, marcado para setembro, colocará por terra tudo o que foi dito até hoje.
A História do Samba, coleção de 40 fascículos semanais, acompanhados a cada número por um CD com 12 canções memoráveis, e dentro do possível em fonogramas originais, levanta a lebre no caso de Pelo Telefone, no número de estréia. O jornalista Arley Pereira, coordenador das pesquisas e redator do projeto, afirma que antes desse samba, pelo menos outros 20 foram gravados.
Tem mais. Mexendo no baú da história, constatou-se que Donga não seria o criador da célebre música. O que ele fez foi apropriar-se de uma canção que animava os pagodes no Rio de Janeiro, e registrá-la como sendo sua.
Mais tarde surgiu um parceiro - a contragosto de Donga - na figura de Mauro de Almeida, cronista carnavalesco que se assinava Perus dos Pés Frios. O sambista teve que aceitá-lo.
Pelos levantamentos de Arley, Pelo Telefone seria quase um partido alto. É aquela história de ter a primeira parte, que é um refrão, e as pessoas que participavam da roda de samba improvisavam em cima. Desse modo tem-se dezenas de pais, argumenta. O que Donga fez foi pegar a letra e a música e registrar na Biblioteca Nacional.
Acredita-se que a própria Tia Ciata, considerada a mãe do samba, seja uma de suas autoras. Afinal foi em sua casa que a música apareceu. Ali todo mundo cantava. Todos os participantes improvisaram uma parte, afirma o jornalista.
Voltando à história oficial reza a tradição que Pelo Telefone seria uma crítica à proibição da jogatina no Rio de Janeiro. Daí os versos gravados no disco de 1917: O chefe da polícia pelo telefone mandou me avisar/ que na Carioca tem uma roleta para se jogar.
No original a letra era um pouco diferente: O chefe da folia pelo telefone mandou me avisar/ que com alegria não se questione para se brincar. Variações a partir de uma mesma idéia devem ter umas dez, avalia o jornalista.
Sem contestaçãoOitenta anos de um equívoco que facilmente poderia ter sido evitado, mostra a disposição do brasileiro em acatar como verdade aquilo que ouve, sem contestar. Vivemos num país de dogmas. Alguém afirma uma coisa e todo mundo aceita, não quer saber se é verdade, constata Arley Pereira.
No rastreamento para a coleção História do Samba foram encontradas quase duas dezenas de sambas gravados antes de 1917. As provas estão em discos e em catálogos de gravadoras. No começo do século, com o sucesso da Casa Edison no Rio de Janeiro, houve uma febre de gravadoras no Brasil.
Pequenas empresas pipocaram País afora. No Rio Grande do Sul havia uma muito importante. Dentro desse clima de euforia é natural que a música nativa encontrasse o caminho da prensagem. Já em 1913 tinha gente nos estúdios deixando as marcas do samba no acetato. Quatro anos antes de Pelo Telefone.


