Das agências de notícias
Dona Lúcia Rocha se define como ‘‘uma estudiosa da obra de Glauber Rocha’’ , figura mítica do cinema brasileiro e mãe de um dos maiores nomes da cinematografia mundial, ela é hoje uma ativista em defesa da obra do filho e do cinema brasileiro. Dona Lúcia esteve na 3ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), na semana passada, para a inauguração da exposição ‘‘Glauber Vivo’’ e para a premiação do filme ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’, como o ‘‘Filme do Século’’ do cinema brasileiro. Leia a seguir trechos da entrevista:
O que a senhora está achando desta presença marcante do Glauber na 3ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com o ‘‘Filme do Século’’, a exposição ‘‘Glauber Vivo’’ e com dois longas entre os filmes mais votados para a programação da Retrospectiva do Cinema Brasileiro?
A notícia de que o Glauber seria homenageado com a escolha do ‘‘Filme do Século’’ me causou muito espanto e fiquei muito emocionada. Eu fico feliz em ver o Glauber na mídia, ver ‘‘Deus e o Diabo’’ escolhido como ‘‘Filme do Século’’ me conforta, ele começou a fazer este trabalho quando tinha 20 anos. O meu trabalho é reunir e divulgar a obra do Glauber, eu tenho feito isto através dos filmes e de livros como o ‘‘Cartas ao Mundo’’, que foi organizado pela Ivana Bentes. Mas há outras coisas do acervo que precisam ser divulgadas. Eu fazia um trabalho primário de conservação dos desenhos que o Glauber fazia dos filmes. O Glauber era talvez menos cineasta do que poeta escritor ou desenhista, esta era uma faceta desconhecida dele. Dentro de mim se forma uma emoção muito grande, eu sempre tento separar o Glauber filho do cineasta, hoje eu sou uma estudiosa da sua obra, eu cuido para que ela não caia no esquecimento.
A senhora é uma ativa defensora da memória da obra do Glauber através da ‘‘Tempo Glauber’’, como anda a manutenção do espaço?
A ‘‘Tempo Glauber’’ é um espaço de riqueza inexplorada. Eu tenho uma certa amargura em falar deste assunto, mas não vou desistir do meu trabalho. Eu não tenho patrocínio dos órgãos públicos. Acabei de ganhar a casa que me foi doada pelo INSS, antes ela me havia sido cedida por regime de comodato. Um tempo depois eu recebi um comunicado me dizendo que o imóvel me seria solicitado. Foi terrível, mas eu fiz um apelo ao Ministro da Previdência através de alguns cineastas, como o Walter Salles, o Luiz Carlos Barreto e o Cacá Diegues, e consegui a doação do imóvel, o que para mim foi uma grande vitória.
Na sua opinião, qual o papel das mostras e festivais de cinema?
Eu estou aqui para defender o cinema brasileiro, o que requer muito trabalho. O cinema brasileiro tem o seu mérito, vejo jovens falando que querem fazer cinema, que façam, vídeos ou curtas, o importante é fazer. Eu assisto muitos filmes brasileiros, principalmente em festivais e mostras das quais faço questão de participar. O cinema é a maior fonte de cultura, porque fica registrado eternamente. Eu adoro o teatro, se fosse atriz seria atriz de teatro, mas o cinema tem esta vantagem do registro. As mostras e festivais são de grande importância, todos os estados deveriam ter um evento como este.
Hoje muitos estão nascendo, mas são ainda bebês. Eu tenho muita vontade de organizar um festival, eu sei que dá trabalho mas é uma coisa que me fascina. O encontro das idéias é importante e necessário, os órgãos públicos deveriam incentivar isto.
O que a senhora acha de ver um filme do Glauber sendo projetado em praça pública com aconteceu em Tiradentes?
Eu sou a favor do cinema em praça pública, o Glauber dizia: ‘‘Filme é para ser passado com portas abertas’’. Ele adoraria ver um filme dele sendo passado para o público que não pode ir ao cinema. Eu estou tentando levar ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’ e o ‘‘Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’’ para serem projetados em Monte Santo e Milagres, onde foram produzidos. Nestes locais, a população conserva as locações dos filmes, sem nunca vê-los, é vendo que se aprende.

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