Dona Geni vai à praça
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sexta-feira, 13 de junho de 2008
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
A dama trocou a noite pelo dia e, mesmo assim o coro, as gentes, as otoridades se perguntaram: Cadê dona Geni ? Ela é boa de cuspir.
Porém, o que ninguém podia esperar é que, em plena praça, uma situação reveladora contaria quem são os verdadeiros moradores da cidade.
Ela é Bendita Geni, personagem que mora na Ópera do Malandro, de Chico Buarque, e emprestou o nome para o espetáculo que a Companhia Garagem apresentou ontem, no final da manhã, na Praça Marechal Floriano Peixoto.
Todo mundo tem medo de morrer... Mas e de dona Geni? Quem tem medo? A resposta fica no ar, mas todos que já dividiram a sua história, temem o que ela sabe sobre os seus segredos mais íntimos.
A pergunta do narrador é indireta à platéia de homens, mulheres e muitos estudantes que não ficam indiferentes. Alguns espectadores são apresentados pela primeira vez à arte teatral com esta montagem londrinense vencedora do Prêmio José Antonio Teodoro.
À medida que o espetáculo avança, do meio do povo que surgem alguns palpites curiosos sobre a apresentação: Aquilo não é mulher, não, disse um estudante ao ver Geni. A protagonista é interpretada pela travesti Scarlett OHara. Ele acredita que é, respondeu outro. Um bando desse solto no mato, não fica um bicho. Isso é o demônio. O inferno, manifesta um sujeito, visivelmente assustado com a travesti.
As amigas Raimunda Lima, 71 anos, e Socorro Silva, 60 anos, turistas de Manaus, acompanhavam a apresentação e também tinham as suas idéias sobre o caso. Lá em Manaus temos vários espetáculos de rua. É uma oportunidade para convidar os jovens a se interessarem pela arte. É preciso falar sobre preconceito, mas tudo tem um ponto de limite. Não se pode abrir todas as portas porque cada pessoa é um indivíduo, com as suas limitações no seu ponto de vista, sua individualidade, comentou Socorro.
Para o estudante Jorge Alberto Rosa Florindo, 22 anos, a discussão sobre a hipocrisia e preconceito, na peça, ajudam os jovens a refletiram sobre o assunto.
Mas Geni que, de maldita pulou nos braços da graça, caindo novamente no chão, depois de servir aos prazeres de um militar que ameaçava a cidade, entrega a turba às suas próprias vergonhas. O público acompanha, presta atenção a tudo. Enquanto isso, as viúvas entram em cena, voltando do cemitério, onde têm as suas vidas enterradas, dizendo à Geni que ela é à toa, que só sabe destruir lares.
É que, como diz Buarque, De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/Ela já foi namorada. Geni não deixa por menos, e rebate as ofensas, dizendo que se houver algum vadio, são os outros um inferno que nos rodeia. A dama da noite Geni também escolhe os seus amores; afinal, ela é maldita, mas tem lá seus caprichos, como qualquer um de nós.
O espetáculo se repete amanhã, no mesmo local,
às 11 horas.
(Leia mais sobre o Filo na pág. 3)


