DONA DE CASA, SIM SENHOR!
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de abril de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Não se iludam. Não há nenhuma fórmula mágica para colocar a vida dos leitores nos eixos em Guia do Solteiro, livro do jornalista norte-americano P.J.O Rourke que acaba de sair no Brasil pela editora Conrad.
Apesar do subtítulo Como Fazer de Sua Casa um Confortável Chiqueiro
algumas livrarias já estão expondo o volume nas prateleiras de auto-ajuda ao lado de receituários de Lair Ribeiro, Roberto Shinyashiki e outros da espécie.
Só que a única ajuda oferecida pelo autor nas poucas mais de 140 páginas é fazer rir, rolar de rir. O livro, segundo ele, é dirigido aos subgerentes regionais, universitários que vivem fora do campus, divorciados, jovens que tenham ouvido dos pais um dá o fora dessa casa e qualquer sujeito cuja namorada não quer casar porque o primeiro marido dela era um vagabundo.
Enfim, decreta ele, o livro é dirigido a todos os homens que moram em casas com panelas sem cabo. P.J.O Rourke escreve para a revista Rolling Stone. Esteve no comando de diversas publicações alternativas. Na década de 70, editou a famosa National Lampoom, a bíblia do humor norte-americano. Já foi saudado como o escritor mais engraçado da América pelo Wall Street Journal.
Engordou a conta bancária lançando sucessivos best sellers: Republican Party Reptile, Holidays in Hell, Parliament of Whores, Give War a Chance e Etiqueta Moderna Finas Maneiras para Gente Grossa (publicado há dois anos no Brasil pela Conrad). Em sua nova empreitada, ele ataca o comportamento politicamento correto já na introdução. E, ao longo das páginas, destila sarcasmo entre uma tirada espirituosa e outra.
Leia em voz alta o trecho a seguir, mas não deixe sua mulher ouvir:
Ser um solteirão me transformou em dona de casa. E das piores. E agora tenho uma visão diferente do papel tradicional da mulher na sociedade. Uma dona de casa precisa ser uma química, engenheira, mecânica, economista, filósofa e viciada em trabalho. Só para recolher sua própria bagunça. Eu tremo ao pensar o que acontece quando, além de tudo, também tem crianças, bichos de estimação e alguém como eu na casa. Portanto, é com profundo respeito que peço conselhos às minhas amigas. O que devo fazer para tirar aquele fungo verde do pão?, pergunto eu. Eu não sei, elas respondem. Pergunte ao meu marido. É ele quem cozinha lá em casa. Estou muito preocupada com minha carreira.
ROurke parece um profeta do caos doméstico. Fornece dicas aos solteirões que incursionam sem sucesso por áreas temerárias como culinária, faxina e decoração. Manter uma casa é tão desagradável e imundo quanto minerar carvão, e a remuneração é muito pior escreve ele. A culinária do solteirão é uma questão de atitude proclama mais adiante.
Se você acha que culinária é tocar fogo nas coisas e fazer bagunça, você vai se divertir: mas não é tão divertido se você considera culinária em termos de comida. Felizmente, mortadela, hambúrguer, cerveja e patê com batata frita contêm todos os nutrientes diários que um solteirão precisa. Quer dizer, eu espero que sim. Em defesa da classe, o autor lembra que comer não faz nenhum solteiro engordar, mas casamento sim.
Diz para comparar as cinturas dos amigos casados com as dos solteiros. E aí, concordam com ele? A limpeza da casa, outro problemão para quem mora só, recebe atenção redobrada do autor. Ela ocuparia o tempo que, na imaginação dos casados, seria devotado a folhear agendas telefônicas. Esse tempo, na verdade, é gasto usando camisetas como panos de chão e desenroscando o fio do aspirador dos pés das cadeiras.
Ou pensando em razões para não fazê-lo, como faz o autor: Eu penso assim: Sujeira é uma coisa superficial, uma questão de aparência. Acho que: se você não pode ver a sujeira, ela realmente não existe. Não vale olhar atrás das caixas de som. No quesito limpeza, ROurke alerta para não tentar impressionar as mulheres com falsas exibições:
Quando as roupas sujas estão enfiadas em um armário, nós achamos que está tudo sob controle, mesmo que o chão esteja grudento. Mas as mulheres conseguem discernir arrumado de limpo, especialmente depois de terem debruçado no parapeito da janela com calças de linho branco. Ao instalar a operação-faxina na cozinha, a ordem é se manter calmo e não se deixar perturbar com a visão.
Para o autor, a geladeira é o único eletrodoméstico amigo do solteirão. Como qualquer coisa com uma tampa, ela nunca precisa ser limpa, apenas arrumada de vez em quando anota. Comida de geladeira transforma-se em lixo diretamente. Diferentemente da sujeira da casa, não existem estágios intermediários. E comidas revelam a si mesmas. Geralmente apresentam-se em tons terra. Quando o queijo, o leite ou a carne moída tornam-se policromáticos é hora de jogá-los fora.
E o que ele diz sobre lavar banheiros? Dá para imaginar? Bem, convém pular este capítulo.
Fragmentos do livro


