Dona das próprias vontades
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quinta-feira, 16 de outubro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
Arquivo FolhaChiquinha Gonzaga: legado de mais de 2 mil obrasO piano permanecia mudo na sala. Por imposição do marido, um oficial da Marinha, Francisca Edwiges Gonzaga - conhecida como Chiquinha - não deveria tocá-lo. Ela levava música muito a sério numa época em que as mulheres aprendiam a tocar apenas para alegrar o ambiente. A compositora, ainda adolescente, optou por um estratagema: comprou um violão. Considerado instrumento de malandro, a aquisição aumentou o nervosismo do marido. Entre abandonar a música ou o esposo, a garota preferiu a segunda alternativa.
Não foi a primeira vez que Chiquinha Gonzaga escandalizou a sociedade brasileira do século 19. Considerada uma das figuras mais importantes dos primórdios da música popular brasileira, a compositora ainda enfrentou outro relacionamento frustrado, se dedicou à causa abolicionista, defendeu a República, fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e sofreu todos os preconceitos de uma sociedade em que a mulher não tinha voz ativa, deixando um legado com mais de 2 mil obras. Os 150 anos de nascimento de Chiquinha Gonzaga estão sendo comemorados hoje, com o lançamento do CD Chiquinha Gonzaga/150 Anos, da pianista Rosária Gatti (ver texto nesta página) .
Nascida em 1847, Gonzaga escreveu a primeira música aos 11 anos: Canção dos Pastores. Após a primeira separação, ela foi banida da família pelo pai. O sustento veio com as aulas de piano, até que a instrumentista chamou a atenção do flautista Joaquim José da Silva Callado, um dos grandes nomes do início do choro.
Mas a carreira foi trocada pela paixão por um engenheiro, e Chiquinha Gonzaga resolveu acompanhá-lo pelas estradas de ferro do interior de Minas. O relacionamento atraía olhares ácidos da corte. Quando voltou ao Rio, já em 1875, percebeu a ojeriza que seu namoro provocava na sociedade, e ainda por cima flagrou o companheiro cortejando outra mulher. A separação foi imediata.
A reação Desiludida, mergulhou em questões políticas como a abolição e a República, participando das rodas intelectuais que recheavam a boemia da época. Para se manter, a instrumentista vendia suas partituras na rua, de porta em porta. À noite tocava em festas e eventos. Entre suas composições, destaca-se Atraente, de 1877. Parte de sua renda era destinada a entidades abolicionistas.
Produziu música para teatro, entre elas Corta-Jaca e Menina Faceira. Também contestou a aura de marginalidade que cercava o violão, dirigindo um concerto que reuniu vários violonistas em 1886. Em plena campanha republicana, escreveu Aperte o Botão, com conotações políticas. Ameaçada de prisão, tornou-se mais popular.
Seu maior sucesso foi a música carnavalesca Ó Abre Alas, feita para o cordão Rosas de Ouro, tornando-o campeão em 1899. Mas o crítico Ary Vasconcelos, em Panorama da Música Popular Brasileira da Belle Époque, questiona a popularidade da composição na época, afirmando que o sucesso não foi dos maiores, e que a música seria resgatada posteriormente.
Chiquinha Gonzaga viajou por toda a Europa divulgando sua música, e conquistou vários admiradores em Portugal. De volta ao Brasil fundou, em 1917, a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais, onde trabalharia até a morte, em 1935, após se destacar como a primeira mulher a compor para teatro e a primeira maestrina do País.


