Primeira novela gravada durante a pandemia de Covid-19, “Nos Tempos do Imperador”, estreou cercada de expectativas nesta semana, na faixa das 18 horas da Rede Globo. O folhetim escrito por Alessandro Marson e Thereza Falcão tem a difícil missão de retratar um momento histórico do país, o Segundo Reinado, que aconteceu sob a tutela de Dom Pedro II. Ambientada no Rio de Janeiro, a trama fala sobre escolhas e sacrifícios, desafios, conquistas, batalhas, vitórias e derrotas vividos por personagens históricos.

A história é centrada na figura de Dom Pedro II, vivido por Selton Mello em sua volta às novelas após um hiato de 21 anos. Casado com a imperatriz Teresa Cristina (Leticia Sabatella), ele convida a condessa de Barral (Mariana Ximenes) para ser preceptora das filhas dele (as princesas Isabel e Leopoldina), mas acaba se apaixonando por ela. A trama tem início em 1856 mais de 30 anos após a Proclamação da Independência, quando o país em construção, ainda na formação de um Império, deu lugar a um Brasil em busca de identidade e progresso. Dom Pedro II é retratado como um líder que persegue esses ideais para garantir a integração da nação e ampliar os horizontes do povo, investindo na educação, que acredita ser as chaves para o futuro. Embora seja uma obra de ficção, os autores prometem mostrar várias facetas do controverso imperador afirmaram em entrevistas que não farão uma novela chapa-branca.

Dom Pedro II ( Selton Mello) é retratado como um líder que persegue ideais para integrar a nação
Dom Pedro II ( Selton Mello) é retratado como um líder que persegue ideais para integrar a nação | Foto: João Miguel Junior/ Globo

Nascido em 1825, Dom Pedro II precisou assumir cedo a responsabilidade com a política. Com apenas cinco anos, tornou-se principe após a volta de seu pai, Dom Pedro I, para Portugal, com o intuito de disputar a coroa portuguesa. A mãe, Leopoldina, morreu quando ele tinha apenas um ano, e sua educação foi conduzida por preceptores. Teve sólida formação, muito focada em alta cultura, ciência e tecnologia. Foi declarado apto a assumir a coroa aos 14 anos, quando entrou em vigor a Lei da Maioridade.

Sob sua gestão, o período chamado de Segundo Reinado teve início em 1840 e encerrou-se em 1889. Nesse período que durou quase meio século, a economia do país passou por mudanças favoráveis significativas, se modernizou e se urbanizou. Contribuíram para o desenvolvimento econômico do país, o cultivo do café, do cacau, da borracha e do algodão. Foram inauguradas no Brasil várias companhias de navegação a vapor, oito estradas de ferro, fábricas de tecidos e companhia de gás, o que permitiu iluminar as ruas com lampião a gás. Também foram construídos jardins públicos, teatros, hotéis e salões de baile.

No dia 15 de novembro de 1889 o governo imperial foi derrubado. Estava proclamada a República no Brasil. No dia seguinte organizou-se um "Governo Provisório", que determinou o prazo de 24 horas para a família imperial deixar o país. Dom Pedro II embarcou com a família para Portugal, onde sua esposa morreu dias após a chegada do casal. Com 66 anos, ele seguiu sozinho para Paris, ficando hospedado no Hotel Bedford, onde passava o dia lendo e estudando. Morreu no dia 5 de dezembro de 1891, em consequência de uma pneumonia.

Período de expansão econômica

Na avaliação do professor Marcos Soares, do departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o maior legado que Dom Pedro II deixou para o Brasil foi a inserção do país no circuito internacional das transações comerciais. “Dom Pedro II foi uma das pessoas que mais divulgou o país no exterior. Como ele esteve sempre antenado com as descobertas científicas e com as pesquisas feitas em diferentes nações, acabou transferindo para o país a sua visão de política externa, aproximando nosso país com as potências daquela época sobretudo França e Estados Unidos”, destaca o docente que também atua como diretor do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da UEL.

Pontos negativos do Segundo Reinado

Soares ressalta que apesar de ser visto como um homem de grande cultura, Dom Pedro II não propiciou ao país o surgimento de universidades durante a sua gestão. “A universidade no Brasil é tardia, ela é fruto do século 20. Apesar de ser um homem culto, para ele a vida intelectual e o esmero cultural era apenas para a sua classe, apenas para a aristocracia”, salienta.

Abolição tardia da escravatura

Outro aspecto negativo apontado pelo professor de História foi o fato de Dom Pedro II decretar tardiamente a abolição dos escravos. “A escravidão naquele momento nos envergonhava, sobretudo na Europa, onde havia campanhas pela abolição da escravidão e o imperador sempre fez ouvidos moucos para isso. Quando finalmente o império percebeu que tinha que libertar os escravos já era tarde demais, pois havia se passado séculos de exploração desta mão de obra. E os escravos não tiveram as indenizações necessárias. O que o império fez foi apenas livrar os senhores de terra daquela mão de obra, que passou a ser importada. E aí então a gente é levado a pensar que o que sustentava o império era a escravidão, acabou a escravidão acabou o império. Ele poderia ter modernizado o país com a inserção dos escravizados nas dinâmicas econômicas nacionais”, argumenta.

 Dom Pedro ( Selton Mello ) morreu em Paris em 1891
Dom Pedro ( Selton Mello ) morreu em Paris em 1891 | Foto: João Miguel Junior/ Globo

Resquícios do período imperial

Na visão de Soares, ainda hoje o Brasil sofre com os resquícios do período imperial. “Primeiro uma coisa terrível que é a herança da escravidão. Essa desigualdade absurda econômica e étnica é fruto da da exploração secular da mão de obra de pessoas escravizadas. Outro resquício é a permanência de valor que é pago para a Família Real em algumas regiões do país, como uma determinada área de Petrópolis e de Salvador. Chama-se laudêmio e isso é pago ainda hoje. E também o reconhecimento público da existência de uma família imperial. A maior parte das repúblicas ao abolirem os seus poderes reais, retiraram também essa reverência. Aqui foi mantido anacronicamente uma certa reverência pela Família Real, sem a gente nem saber direito quem são, quais os seus ramos aqui no país e quais são as suas disputas internas”, conclui.

Isabel ( Giulia Gayoso ),  Teresa Cristina ( Letícia Sabatella ) e Leopoldina ( Bruna Griphao )
Isabel ( Giulia Gayoso ), Teresa Cristina ( Letícia Sabatella ) e Leopoldina ( Bruna Griphao ) | Foto: João Miguel Junior/ Globo

Imperador visitou o Paraná

Dom Pedro II visitou o Paraná em 1880. Acompanhado da imperatriz Tereza Cristina, de políticos, membros do governo e militares, o imperador participou do lançamento da pedra fundamental da construção da estada de ferro de Paranaguá a Curitiba e a inauguração da Santa Casa de Misericórdia na capital do estado. Registros da época apontam que a caravana imperial passou por 21 municípios paranaenses, percorrendo cerca de 600 quilômetros. Entre as cidades visitadas estão Antonina, Quatro Barras, São Luiz do Purunã, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, Lapa e Araucária.

Herdeiros da Família Real viveram no Norte Pioneiro

Tataraneto de Dom Pedro II e bisneto da princesa Isabel, Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança (1909-1981), sua esposa Maria Elizabeth (princesa da Baviera) e nove de seus doze filhos moraram no Paraná. Os descendentes da Família Imperial viveram na década de 1950 em Jundiaí do Sul, município do Norte Pioneiro. A estadia paranaense durou doze anos, período em que foi dono da propriedade rural.