Ademir Fernandes
Agência Estado
Não há um dia sequer, com certeza, em que alguém não esteja cantando ‘‘A Noite do Meu Bem’’, em algum dos bares da vida. E o irônico é que esse verdadeiro hino do amor demais começou a fazer sucesso só depois da morte de sua autora, Dolores Duran, há 40 anos - no dia 24 de outubro de 1959. A música havia sido composta um mês antes e se somava às dezenas de composições que são consideradas verdadeiras obras-primas, rabiscadas em guardanapos de papel ou em maços de cigarro, nas mesas dos bares.
Foi num desses guardanapos que Dolores Duran escreveu a letra da antológica ‘‘Por Causa de Voc꒒. O episódio contou com dois personagens de peso - Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. Lembram os boêmios daqueles tempos que Dolores se entusiasmou ao ouvir a melodia que Jobim tocava no piano da Rádio Nacional e se ofereceu para escrever a letra. Vinícius já estava cuidando disso, mas Jobim achou melhor não contar à moça. No dia seguinte, ela apareceu com a letra pronta e entregou ao compositor:
‘‘Ah, você está vendo só / do jeito que eu fiquei / E que tudo ficou.../ Uma tristeza tão grande / nas coisas mais simples / que você tocou / A nossa casa, querido / já estava acostumada / guardando você / As flores na janela / sorriam, cantavam / Por causa de você / Olhe, meu bem, nunca mais / nos deixe, por favor / Somos a vida e o sonho / nós somos o Amor / Entre, meu bem, por favor / não deixe o mundo mau / lhe levar outra vez / Me abrace, simplesmente / não fale, não lembre / não chore, meu bem...’’
Entusiasmado, Vinícius rasgou a sua própria letra e cumprimentou Dolores pelo talento.
A carreira da cantora - que foi tema de dois musicais, um apresentado em 1994 e outro lançado no começo deste ano - havia começado bem antes daquele dia, nos tempos em que ainda atendia pelo nome real - Adiléia Silva da Rocha, nascida em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, em junho de 1930. Filha de um sargento da Marinha, estreou em radioteatro aos 12 anos de idade, logo depois da morte do pai. Aos 16, depois de ser aprovada com louvor no concurso de calouros de Ary Barroso, estreou na boate Vogue e no auditório da Rádio Nacional. Cantava em português, inglês, francês e espanhol.
Seu primeiro LP, intitulado ‘‘Esse Norte é de Morte’’, era carregado do sotaque nordestino e continha composições de Chico Anysio (Prece de Vitalina, Tá Nascendo Fio e Não se Avexe Não), Edson França (Minha Toada) e Miguel Gustavo (Te Cuida, Zeca), entre outros. Mas o sucesso veio mesmo foi com suas próprias composições, sempre com a característica marca da ‘‘fossa’’. E vieram ‘‘Castigo’’, ‘‘Solidão’’, ‘‘Ternura Antiga’’, ‘‘Se é por Falta De Adeus’’, ‘‘Fim de Caso’’...quase 50 músicas, no total.
Foram apenas 29 anos de uma vida intensa - ela cantou na antiga URSS, Argentina e Uruguai, entre outros países - marcada por amores e desamores, consumida pelo alcoolismo e uma doença cardíaca que a obrigava a sair de casa sempre com comprimidos de Isordil dentro da bolsa. Num sábado de manhã, depois de um show na boate Little Club, uma festa no Clube da Aeronáutica e do fim de noite no Kilt Club, Dolores chegou cansada em casa e disse à sua empregada Rita que queria ‘‘dormir até morrer’’. Não acordou mais.
Por causa dessa frase - incorporada à biografia da compositora, que a jornalista Ângela de Almeida está lançando esta semana pela Editora 34 - houve quem levantasse a hipótese de suicídio, logo afastada. Irley, a irmã caçula de Dolores, contou que ela costumava dizer que iria ‘‘comer até morrer’’, ‘‘dançar até morrer’’, ‘‘cantar até morrer’’.
Os parentes da compositora contam, também, que ela era muito brincalhona. Um de seus ‘‘causos’’ entrou para o folclore: uma vez, o oftalmologista lhe receitou um par de óculos, mas ao saber do preço ela disse que preferia comprar uma bengala, alugar um cachorro e ainda sobraria dinheiro.

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