WILMAR KLEIN
Dois velhos
temas filosóficos


I. Desde os pré-socráticos, a .crítica da insensatez tem sido .uma das práticas favoritas da fi.losofia, bastando para confirmar .sua antiguidade uma espiada nos .fragmentos de Xenófanes, Herá.clito, Empédocles e, em especial, .no ‘‘catálogo’’ de Demócrito de .Abdera (cerca de 460-370 a.C.) .conservado na obra de Estobeu .(uns poucos exemplos: ‘‘Insensa.tos vivem sem tirar prazer da .vida’’, ‘‘Insensatos desejam lon.gevidade sem tirar prazer da lon.gevidade’’, ‘‘Insensatos desejam .as coisas ausentes, mas desperdi.çam as presentes, ainda que mais .valiosas que as passadas’’, ‘‘In.sensatos a ninguém agradam a .vida inteira’’). E, é claro, em con.siderar-se antídoto para a insen.satez reside a insensatez da pró.pria filosofia, que, na melhor das .hipóteses, é uma ficção de gênio .ou, como queria Montaigne, ‘‘po.esia feita com sofismas’’. Porém, .como todo mundo se julga bem .aquinhoado no que respeita ao .bom senso (por isso pode um su.jeito reclamar da falta de di.nheiro, de saúde e até da falta de .paz de espírito, mas nunca recla.mará da falta de bom senso), a .crítica da insensatez tem carreira .inesgotável, pouco importando, .na verdade, se o crítico é filósofo .ou engraxate ou mesmo louco .psiquiatricamente comprovado. .Na prática, basta alguém concor.dar conosco para que o conside.remos sensato, uma vez que cada .um considera a sua presumida .sensatez uma medida universal e .só muda de opinião em relação .àquilo que não considera impor.tante ou se previamente se dispôs .a mudá-la (por conveniência, não .raro). No entanto, mesmo as opi.niões que julga sensato conservar, .ele as conservará mais por hábito .do que real convicção.
II. O bem supremo ... eis aí ou.tro tema velho de mais de vinte .séculos, e determinar qual fosse .esse bem parecia aos filósofos .quanto bastava para justificar a .utilidade da filosofia. A p... é que .nunca chegaram a um acordo so.bre o assunto. Pascal resumiu .bem a coisa, sob o título ‘‘inven.ções da razão quanto ao que seja .o soberano bem’’: ‘‘Um diz que o .soberano bem está na virtude, .outro na volúpia; um na ciência .da natureza, outro na verdade: .‘Felix qui potuit rerum cognos.cere causas’ (‘Feliz o que pode .conhecer as causas das coisas’ - .Virgílio, Geórgicas, II, 489), ou.tro na ignorância total, outro na .indolência, outro em resistir às .aparências, outros em nada admi.rar, ‘nihil mirari prope res una .quae possit facere et servare bea.tum’ (‘Não se espantar de nada: .eis, mais ou menos, a única coisa .que pode dar e conservar a felici.dade’ - Horácio, ‘Epodos’, I,VI, .l), e os verdadeiros pirrônicos em .sua ataraxia, dúvida e suspensão .perpétua; e outros, mais sábios, .pensam achar coisa um pouco .melhor. Estamos realmente bem .avançados’’ (‘‘Pensamentos’’, II, .73).
Na falta de bem supremo una.nimemente aceito (e ninguém nos .garante que, houvesse um, logo .não se iria entediar e mudar de .opinião, passando a buscar ou.tro, quem dele desfrutasse), me.lhor abrir o leque da multiplici.dade prosaica das ‘‘boas coisas .da vida’’, na medida em que nos .são acessíveis e enquanto não en.joamos delas. Por exemplo, para .Lord Byron - amigo do também .poeta Shelley, que por sua vez era .marido da autora de ‘‘Frankens.tein’’ (situo dessa forma o autor .do ‘‘Childe Harold’’ porque, afi.nal, todo mundo conhece o .monstro de Frankenstein, imor.talizado na tela por Boris Kar.loff, mas, em contrapartida, .quase ninguém mais, hoje em dia, .lê Byron ou Percy Shelley) - para .Lord Byron, como eu ia dizendo, .nada havia melhor na vida do .que ‘‘um lugar junto ao fogão, .uma salada de lagosta, bom vi.nho e bela palestra’’. Se um su.jeito aprecia coisas como essas .(no caso, uma combinação de .conforto doméstico, aconchego, .boa mesa e satisfação intelectual), .pode perfeitamente dispensar .qualquer bem supremo e viver .muito melhor sem qualquer filo.sofia.

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