Dois prá lá, nenhum prá cá
A vida do professor de dança de salão Pierre Dulaine foi a desculpa para o cinema criar uma nova história sobre adolescentes problemáticos no lado mais sujo de Manhattan. Supostamente baseado em fato real - oportunismo discutível, já que o verdadeiro Dulaine dava aulas a garotos da escola fundamental -, o filme retoma aquele espírito do bem sucedido Mentes Perigosas, realizado em 1995 por John Smith, mas de maneira bem mais edulcorada. Ou se quiserem ir mais longe no tempo, o quarentão Ao Mestre com Carinho poderia servir de parâmetro. Ou o cinquentão Sementes da Violência, de Richard Brooks.
O objetivo do professor vivido por Antonio Banderas em Vem Dançar, em lançamento nacional no país (confira a programação de cinema na página 2), é dar aos jovens marginais uma oportunidade que normalmente não teriam. E ao mesmo tempo oferecer a eles noções de respeito, bons modos e esperança. Ainda que também demonstrando problemas, Mentes Perigosas era bem mais coerente com a rispidez do mundo que representava. Já Vem Dançar deixa uma série de tramas sem conclusão e não poucas incongruências dramáticas no contexto em que se movem os personagens. O roteiro é previsível em alto grau, além de estereotipado e inverossímil.
Os maiores pontos de atração de Vem Dançar são o entusiasmo de Banderas, dançarino muito melhor do que cantor (alguém já se esqueceu de Evita?), e a trilha musical com as conseqüentes coreografias. Trilha que mescla ritmos clássicos e contemporâneos, refletidos desde logo com o remix hip hop da versão clássica de I Got Rhythm cantada por Gene Kelly em Um Americano em Paris. A diretora de videoclipes Liz Friedlander fica a meio caminho entre o que ensina o professor e as transgressões e inovações da garotada.
O problema é que a força de atração da trilha musical e uma certa magia causada pelo envolvimento visual do salão de baile não são capazes de dar consistência a uma história que se recusa a ser mais original do que é de fato. Fica a impressão muito incômoda de que é preciso tirar daqui uma lição de moral, a qualquer custo. E ele é muito alto.(C.E.L.J.)





