DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ - Partilhando a alegria de viver
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sábado, 05 de julho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Toda a poesia do tango perde os movimentos nas palavras e, mesmo dizendo que é um pensamento triste que se pode dançar, como mensurou um dos clássicos compositores, o que se consegue é trair os outros sentimentos, que num torvelinho de emoções tiram os amantes do ritmo.
O poeta e compositor argentino Enrique Discépolo (1901-1951), autor da comparação, não esperou para ver Al Pacino e Gabrielle Anwar dançando tango numa das cenas antológicas do cinema em Perfume de Mulher, que rendeu ao ator um Oscar.
Talvez, ele retocasse a afirmação - sem desprezo à poesia de suas palavras - mas acrescentaria ainda mais atributos à passional comoção que irrompe dos dançarinos.
Na verdade não precisamos de mais nada se não dos nossos ouvidos, cérebro, coração, pernas e de um outro ser humano com quem podemos partilhar um abraço terno e apertado, explica Susana Miller, uma das mais famosas professoras de tango do mundo, sobre o estreitamento entre o corpo e o coração nas laçadas da dança.
A paixão pelo tango e por outras danças de salão pode ser irresistível. É o caso do adolescente Rodolfo Pires Goulart, de Rolândia, que troca o descanso do final de semana para participar de aulas em Londrina. É uma dança que exige que você esteja disposto a aprender a andar novamente, igual ao tango, afirma Rodolfo, que começou a freqüentar as aulas de danças de salão aos 13 anos de idade.
Os outros dois irmãos de Rodolfo já participaram de grupos de dança folclórica alemã, comum naquela cidade, mas ele prefere a arte dos salões.
Para o adolescente, a música é mais forte que a dança, o que faz lembrar uma afirmação de Susana Miller: Basta o bailarino ouvir o som para entrar na pista de dança e sentir uma vontade de criar um sonho, a partir do nada. Gosto da dança de salão porque tem sentimento. Dependendo da pessoa que dança, a gente sabe o que ela está sentindo, explica Rodolfo.
A dança de salão é composta por três ritmos principais: o samba, que mantém algumas características do samba de gafieira, incorporando outros estilos; o bolero, que também recebeu um novo formato, com mais giros, e o soltinho, um gênero divertido, uma mistura de swing e fox.
No Brasil, a arte chegou durante a Primeira Guerra Mundial de braços dados com a suíça Madame Poças Leitão, dona da primeira escola de dança de salão no País.
Nos últimos anos, a dança tem se tornado cada vez mais popular, protagonizando até o segundo filme de Laís Bodanzky, Chega de Saudade, com Betty Faria, Cássia Kiss e Tônia Carrero.
Há alguns anos, Londrina só tinha uma academia de dança. Hoje são cinco escolas. Com a divulgação na mídia aumentou o número de pessoas que querem aprender a dançar, principalmente os homens, que antes tinham vergonha, afirma a professora Daiane Gonzalez, que trocou o balé clássico pela arte dos salões na academia Espaço Latino.
Para os homens que ainda não têm coragem de entrar na pista, Daiane dá um incentivo: Além de benefícios como fazer novos amigos, melhorar a coordenação motora, ritmo, flexibilidade, equilíbrio e queimar algumas calorias. Os homens que sabem dançar têm mais chance na arte da conquista. As mulheres admiram e são mais simpáticas a eles, comenta.
Aproveitando que a dança é um argumento para conhecer novas pessoas, não é preciso ir acompanhado à aula, já que todos os alunos têm oportunidade de dançar uns com os outros e ninguém fica esquentando banco.
Busquei a dança de salão para exercitar a mente e o corpo. Vim à aula sozinho. A minha mulher tem hora que apoia e, outras vezes, diz que não gosta que eu dance, conta o operador de equipamentos, Sávio Vieira, 46 anos, acrescentando que nunca foi um pé de valsa.
Daiane explica que seis meses são suficientes para a pessoa sair rodopiando. Em um ano, já é possível dominar as técnicas. Mais do que isso, alguns conseguem dar um passo à frente na timidez.
Ser tímido é algo que trava a gente. A dança me ajudou a superar o problema, principalmente porque quando a gente chega, não conhece ninguém e logo faz novos amigos, comenta a dona-de-casa, Ivonete Rodrigues Nunes, 47 anos.
Há também os parceiros de uma vida que querem sair pelo mundo afora dançando juntos, arrasando nas festas.
É o caso do aeroviário aposentado Miguel Moreno, 60 anos, e a esposa, a professora Luzanira Viana, 51, anos. Há um ano e meio, o casal troca os passos nos salões de dança.
Moreno diz que gosta mais de samba porque é um ritmo que pode ser dançado em qualquer festa. Quando a gente sai para algum casamento, aplicamos o que aprendemos nas aulas. As pessoas ficam impressionadas. A gente acaba se destacando, conta.
Dançar pode ser para qualquer um, não importando também o lugar. Carla Malucelli é dona da Escola de Dança Ritt e de uma gráfica em Londrina. Ela conta que já levou a arte para o parque gráfico, onde todos os funcionários da empresa participam das aulas.
Carla diz que as pessoas mais maduras procuram as academias porque são as que mais freqüentam os bailes. Os jovens, principalmente os da região, querem aprender a dançar o ritmo sertanejo.
Seja o tango, maxixe, forró, bolero, soltinho ou qualquer outro gênero, não é preciso ficar intimidado por grandes performances como a de Al Pacino em Perfume de Mulher. Para filmar a cena magistral, o astro precisou de aulas intensivas e, mesmo assim, levou quatro dias rodando a seqüência.


