Dois monólogos e uma fábula
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segunda-feira, 23 de março de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Um dos espetáculos mais aguardados pelo público (não há mais ingressos disponíveis), e uma estréia nacional são as grandes atrações do sexto dia do 7º Festival de Teatro de Curitiba. Por partes. Sozinho no palco, Diogo Villela, que acabou de ganhar o prêmio Shell de melhor ator, conta a história de Axenry no elogiado Diário de um Louco que será reapresentado amanhã, no Teatro Fernanda Montenegro. E falando em reapresentação, hoje é o último dia para conferir o espetáculo Dama da Noite, monólogo interpretado por Gilberto Gawronski.
Sob o foco dos holofotes, Diogo Villela. Ou melhor, o solitário Axenry, um pobre funcionário público que descamba paulatinamente para a loucura. Axenry é, sobretudo, um sonhador que anota em seu diário sebento todas as frustrações por que passa - sua insignificância (seu ofício consiste em manter afinada as penas com as quais seu chefe escreve) e até mesmo a repulsa física que causa na inalcançável amada.
Escreve em seu miserável quarto. É lá que se dá o direito, durante o processo de enlouquecimento, de se achar o rei da Espanha, um modo enviesado que encontrou para obter respeito das pessoas. Não consegue. Sua imaginável nobreza acaba, sim, por despertar a ira de uma multidão de conspiradores (o pessoal do hospício) que o aprisiona para lhe aplicar as mais humilhantes torturas.
Diário de um Louco foi montada em 64, com Rubens Correa à frente, arrancou aplausos calorosos. Trinta e três anos depois é a vez de Diogo Villela (que esperou dez anos para montá-la; esperou o amadurecimento artístico para isso) arrebatar crítica e público com o texto de Nikolai Gogol, precursor do realismo russo, que se especializou em observar a vida de pessoas simples manipuláveis pelo poder, e que... morreu louco. Num hospício. A direção do espetáculo é de Marcus Alvisi.
Sensibilidade. O olhar apurado por trás de atos e falas de personagens imaginadas por um autor que se não difícil, pelo menos não muito popular: Anton Tchekhov. A peça: Ivanov com a qual o grupo Tapa faz a estréia nacional hoje no FTC. Trata-se, segundo o diretor e também tradutor do texto Eduardo Tolentino, de um fábula (escrita no século XIX). E como toda fábula, atemporal. A peça reflete uma angústia similar do nosso tempo- diz Tolentino.
A peça, escrita em 1887, se debruça sobre a incapacidade de amar e de agir de um grupo social vivendo na antevéspera de uma transformação histórica. Para se chegar ao texto português pretendido pelos autores - a co-autoria é de Denise Weinberg - foram necessários oito anos. Foi preciso, além das pesquisas, captar as reais intenções, sensações e sensibilidades do autor.
Antes da estréia oficial em Curitiba, a convite da produção, os 18 atores mais o diretor resolveram fazer uma espécie de pré-estréia em dezembro passado, no centro Cultural de Monte Azul, um bairro pobre de São Paulo. Foram duas apresentações. Tivemos um retorno surpreendente, poucas vezes vi uma reação assim de uma platéia- informa Tolentino.
O diretor e tradutor deixa claro que além da fidelidade ao texto de Tchekhov teve também a preocupação em manter-se fiel às sensibilidades emanadas pelo autor russo. Mas por que Tchekhov? Bem, aí o diretor se dá o direito de sair pela tangente de maneira inteligente. Quando se vai fazer uma peça no Brasil temos que ter justificativas para isso, parecemos réus. Na minha opinião, poucas vezes no teatro mundial vi expressões tão bem definidas como Tchekhov, Shakespeare e os autores gregos - diz ele.
Tal declaração reflete e bem o espírito do Grupo Tapa que sempre teve um perfil artístico peculiaríssimo. A preocupação, em outras palavras, é manter um repertório que leve o público principalmente à reflexão e não apenas ao divertimento pelo divertimento. O grupo Tapa existe há 18 anos, 12 dos quais fixados em São Paulo. Nesses anos todos já montaram 36 espetáculos. O prestígio do grupo faz com que há quatro anos tenha um patrocinador fixo: o grupo Pão de Açúcar. Que investe a considerável quantia de R$ 240 mil nas peripécias teatrais do Tapa.


