Estão nas livrarias dois ótimos livros sobre o jogo da bola. ‘‘O Diamante Eterno’’, de André Ribeiro, celebra um dos maiores ídolos nacionais, o craque Leônidas da Silva. Uma bela e amorosa biografia. ‘‘Como Eles Roubaram o Jogo’’, do jornalista inglês David A. Yallop, não deixa de ser uma biografia, pois acompanha de perto a trajetória de João Havelange, durante 24 anos todo-poderoso presidente da Fifa. Mas não se pode dizer que seja caloroso com seu personagem. Muito pelo contrário.
Os livros focalizam momentos distintos na história do esporte. Leônidas atuou no futebol que se convencionou chamar romântico. Ainda semi-amador, nele prevalecia o amor à camisa, o sangue, suor e lágrimas deixados em campo. Coisas de antanho. Leônidas reinou absoluto no futebol brasileiro durante as décadas de 30 e 40. Consagrou-se na Copa de 1938 e encerrou a carreira no São Paulo Futebol Clube, em 1951, aos 38 anos.
Yallop fala de um período posterior - de 1974, quando Havelange assume o poder na Fifa até 1998, ano em que passa a presidência para o sucessor, Sepp Blatter. Segundo o jornalista, nesses 24 anos de reinado, o futebol se tranformou de arte em empresa, de jogo em negócio milionário, no qual prevalece o interesse econômico sobre a beleza do esporte. Segundo ele, não haveria mais espaço, nesse new deal pragmático, para o jogo mágico de Pelé, Puskas, Di Stefano, Garrincha ou Leônidas. Entregando a organização do futebol às multinacionais, a Fifa teria comprometido a arte do jogo.
Nem sempre foi assim. Regressemos à pré-história e a Leônidas da Silva. Sua vida refaz o enredo típico, quase clichê, do menino pobre que joga com bola de meia, se torna craque das peladas no subúrbio até ser descoberto por algum time e criar fama. No caso dele, o pequeno Bonsucesso, porque os grandes clubes do Rio, com exceção de Vasco e América, não gostavam de ver suas camisas vestidas por atletas negros.
Ribeiro acompanha a carreira de Leônidas pelos vários clubes em que jogou, incluindo os anteriores ao Bonsucesso, como Havanesa, Barroso, Sul-América e Sírio-Libanês; depois São Cristóvão, Botafogo, Flamengo, a seleção brasileira, a consagração na Copa de 38, na qual marcou sete gols. Depois a vinda para o São Paulo, no qual viveu grande fase e fez os últimos gols de bicicleta - sua marca registrada, embora a jogada não tenha sido inventada por ele. Mas foi Leônidas quem levou à perfeição esse lance imponderável que, bem executado, parece uma exceção feliz à lei da gravidade.
Leônidas era jogador de espírito forte, encrenqueiro, não gostava de perder nem em treino. Por isso arranjava problemas por onde passava e foi acusado de ‘‘mercenário’’ por leiloar seu passe. Isso, numa época em que o profissionalismo engatinhava. Aposentado dos campos, continuou vivendo do futebol. Foi treinador algum tempo, mas seu temperamento dificultava o trabalho. Tornou-se comentarista esportivo até se aposentar. Vive hoje, com 84 anos, numa casa de saúde em São Paulo, atormentado por um sem-número de males.
Leônidas foi chamado de mercenário porque discutia seus contratos com espírito prático de negociante. Emprestou a marca Diamante Negro, seu apelido, para uma fábrica de chocolates, mas nem por isso fez pé-de-meia suficiente para garantir uma velhice mais folgada. As atitudes que, em sua época, eram vistas como excessivamente interesseiras, parecem hoje de um amadorismo constrangedor. A profissionalização avançou rápido demais no mundo do futebol. E, agora, a vocação multinacional desse esporte chegou ao ápice.
É desse processo, basicamente, que trata ‘‘Como Eles Roubaram o Jogo’’. David Yallop segue de perto a trajetória política e comercial de João Havelange e disseca seu relacionamento com as multinacionais de material esportivo, como a Adidas e a Nike. Nem sempre é convincente. Especialmente quando expressa sua cosmovisão anglófila e, por consequência, depreciativa em relação aos latino-americanos. Insinua uma oposição de base entre civilização (a Europa) e barbárie (a América do Sul) que está longe de ser tão clara assim, em especial quando o assunto é a globalizada máfia do futebol.
Não por acaso, o livro encerra-se com os bastidores da misteriosa partida do Brasil e a França na final da Copa do Mundo de 1998. O nebuloso caso da ‘‘convulsão’’ sentida por Ronaldo antes do jogo serve como exemplo do ponto a que chegou a Realpolitik econômica no futebol. Por um motivo ou por outro, o jogador não tinha condições de entrar em campo, como sabe qualquer leigo que tenha visto o jogo. No entanto, foi mantido durante todo o tempo, fato que desafia qualquer explicação lógica. A não ser que a comissão técnica fosse obrigada a deixá-lo no campo, vagando como um fantasma, pois a isso a obrigava algum acordo inconfessável com o patrocinador.
Como hoje se sabe, a Confederação Brasileira de Futebol firmou um contrato secreto com a Nike, que acabou vindo a público. Tenta-se agora instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as implicações desse negócio milionário. Mas, claro, há muita gente contra a iniciativa e o lobby da CBF já se articulou para barrar a CPI. O livro de David Yallop pode ajudar o leitor a compreender por que esse tipo de coisa ocorre no futebol. A biografia de Leônidas é muito mais prazerosa; mas ‘‘Como Eles Roubaram o Jogo’’ é leitura tristemente necessária para o torcedor brasileiro.Arquivo FolhaJoão Havelange: biografia não mostra simpatia pelo todo-poderoso ex-presidente da FifaLuiz Zanin Oricchio
Agência Estado

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