Dois idosos,uma realidade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de abril de 1998
Jackeline Seglin 
DivulgaçãoCena de As Cadeiras em que é mostrado o cotidiano de um casal através de um humor sutil e poético sem se esquecer do descaso com o idosoUm canteiro de flores que desperte ternura, amor... É isso que o diretor Hugo Rodas espera que o público veja em As Cadeiras, espetáculo que será apresentado hoje em Londrina pelo grupo Tucan (Teatro Universitário Candango), da Universidade de Brasília (UnB), às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.
A dupla de atores Catarina Patury Accioly e Alessandro Brandão vai interpretar o texto de Eugene Ionesco, mestre do Teatro do Absurdo, que conta a história de dois velhinhos lunáticos totalmente entregues ao esquecimento e à solidão. Nesta peça, o limite que separa a realidade da fantasia é muito sutil e, em alguns momentos, deixa de existir. O velho Marechal Síndico passou toda sua vida preparando a mensagem para ser revelada ao mundo. Cabe a Seolharemis instigar o marido a manifestar o que filosofou à humanidade.
Dorico SilvaHugo Rodas, diretor do espetáculo : Eu quis passar uma mensagem de alguma forma otimista, mostrando que mesmo sendo só, é possível fazer uma vida
Acreditando na atualidade do assunto, o Tucan vislumbra despertar, através do cotidiano do casal, um humor sutil e poético, introduzindo uma verdade: o descaso com o idoso. Mas o grupo adianta que o público não vai encontrar só tristeza no palco. Trata-se de um espetáculo em que as pessoas também riem. Eu quis passar uma mensagem de alguma forma otimista, mostrando que mesmo sendo só, é possível fazer uma vida, diz Hugo Rodas, um uruguaio radicado no Brasil.
Durante a montagem, o Tucan procurou fazer uma leitura própria do Teatro do Absurdo. O grupo observa que as montagens de As Cadeiras em outros grupos eram todas muito viscerais. O Ionesco falava com doçura e foi esta a palavra que usamos desde o começo, observa a atriz. O grupo procurou um caminho oposto ao da crueldade. Segundo ela, o espetáculo fala do último momento de vida de um casal de idosos, da solidão, da incomunicabilidade, da infantilização.
Os dois atores que vão assumir os papéis dos velhinhos estão na faixa dos 20 anos de idade. Tentei arrancar deles as emoções, a saudade, a ternura presentes nos velhos, sem ter que imitar ninguém, esclarece. Para Catarina Accioly, o trabalho resultou de uma pesquisa na infantilização do idoso. Não trabalhamos com o esteriótipo do velho, mas com a sua essência, com aquilo que ele sente, explica.
A incomunicabilidade é o ponto chave do espetáculo do grupo de Brasília. Como as pessoas vivem 30, 40, 50 anos sem se tocar?, questiona Hugo Rodas. O espetáculo quer mostrar que o desejo de se expressar das personagens é comum a todos nós. A necessidade de comunicar algo, mesmo que seja um olhar perdido no vazio de outro rosto. A incomunicabilidade entre as pessoas que as palavras jamais poderão preencher...
O Tucan é um projeto do Departamento de Artes Cênicas da UnB que tem duas linhas de trabalho: uma que envolve pesquisas e produções desenvolvidas por professores e pessoas da comunidade e outra que atende aos projetos dos alunos, sob orientação, direção e participação dos professores. O grupo foi criado em 1992 e já apresentou, entre outros espetáculos, The Globe Circus - Uma Aventura sobre Shakespeare, que recebeu prêmio da Fundação OK de Melhor Espetáculo em 97.
As Cadeiras é o resultado de um trabalho de curso, que foi totalmente produzido pelos alunos. O grupo conseguiu terminar a produção da montagem através da Lei do Mecenato/Ministério da Cultura, patrocínio do Banco Cidade e prêmio Aluísio Batata - Auxílio Montagem 97.


