Dois filmes italianos e um chinês são os destaques da Mostra de Cinema amanhã
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domingo, 24 de outubro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 25 (AE) - Dois filmes italianos - "A árvore do Pico", de Francesca Archibugi (Cinesesc, 16h15), e "Assim Eles Riam", de Gianni Amelio (Masp, 21h15) - e um chinês, "17 Anos", de Zhang Yuan (Masp, 19h30) são os destaques da programação de amanhã (26) na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. "A árvore do Pico" e "Assim Eles Riam" participaram do Festival de Veneza do ano passado. O segundo ganhou o Leão de Ouro, prêmio máximo do certame. Com todos os méritos.
Com a história de dois irmão sicilianos, que migram para a industrializada Turim, Amelio retoma um dos temas centrais da questão social italiana, a disparidade econômica entre o norte e o sul do país. A história se passa entre os anos 50 e 60, falando de um tempo que não existe mais para melhor compreender a época atual, como o diretor define seu projeto. Giovanni (Enrico Lo Verso) e Pietro (Francesco Giufrida) saem da Sicília para buscar uma vida melhor. Giovanni é analfabeto. Quer que o irmão estude e se torne professor primário. Acha que é a única possibilidade de ascensão social.
O filme os acompanha de 1958 a 1964, seis anos, mostrados em seis dias escolhidos "ao acaso", cada qual com um título: chegada, traição, dinheiro, cartas, sangue e família. Uma história de desagregação, causada pela cidade grande, que retoma as idéias, e sobretudo o espírito, de um grande clássico, "Rocco e Seus Irmãos", de Luchino Visconti. Presente - Se Amelio quer entender os conflitos atuais à luz do passado, sua conterrânea Francesca Archibugi volta-se diretamente para o presente. A história de "A árvore do Pico" não poderia ser mais contemporânea, com sua descrição de uma família meio desequilibrada. Siddharta é um adolescente de 14 anos, que mora em Roma com a mãe desempregada.
O pai é um diretor de filmes experimentais, que tenta ajudar a família na medida de suas (poucas) possibilidades. Domitila é a meio-irmã de Siddharta, nascida de um relacionamento já encerrado da mãe. Ou seja, há a família, com sua configuração tradicional, no entanto já desagregada pelas novas formas de sociabilidade e sexualidade. Pela porta dos fundos, Francesca introduz ainda outro elemento muito contemporâneo: a presença das drogas na vida das pessoas.
Dois filmes de um mesmo país, mas muito diferentes entre si. Amelio busca o rigor da análise pela via da emoção, ao passo que Francesca prefere um estilo mais seco, documental, embora não desprovido de ternura pelos personagens que retrata. São duas maneira distintas de exercer o humanismo em tempos difíceis. Ambas corretas, válidas, oportunas. O cinema de feição social ainda tem seu papel a cumprir no mundo. Talvez mais necessário do que nunca. Culpa - Também de Veneza, mas da edição deste ano, vem o impactante "17 Anos", do chinês Zhang Yuan, drama contemporâneo sobre a culpa e a redenção. No princípio da história, duas irmãs rivais. Um crime é cometido, e uma delas vai parar na prisão. Dezessete anos depois, é solta para passar o ano-novo com os pais. O centro da trama é esse reencontro entre a moça, já não tão jovem, e pai e mãe que não viu mais depois da tragédia.
Há uma radicalidade profunda na maneira como Yuan entretece o drama particular dos envolvidos com a tensão social do país. E mais ainda na maneira, nada maniqueísta, como retrata a oficial do exército incumbida de acompanhar a prisioneira à visita. Zhang Yuan não anuncia uma conciliação entre passado e presente, mas adota uma visão mais complexa das relação de força no interior da sociedade. A militar "boazinha" não significa um apaziguamente do militante Yuan, censurado em seu país, mas o reconhecimento do artista de que todos, mesmo os opositores, são mais complexos do que se pensa no calor da luta. Humanismo, mais uma vez.


