LEITURA -

Dois escritores numa noite iluminada

'Correspondência 1945 – 1970' reúne a troca de cartas entre os escritores japoneses Yasunari Kawabata e Yukio Mishima

Marcos Losnak
Marcos Losnak

A conversa entre dois escritores pode ser interessante. A conversa íntima entre dois dos maiores nomes da literatura japonesa do século 20 pode ser mais interessante ainda.


A editora Estação Liberdade está lançando um livro que mostra como esse tipo de conversa pode revelar os bastidores da literatura. Trata-se de “Correspondência 1945 – 1970”, volume que reúne as cartas trocadas entre os escritores japoneses Yasunari Kawabata (1899 – 1972) e Yukio Mishima (1925 – 1970) ao longo e 25 anos.




Quando Mishima escreve a primeira carta endereçada a Kawabata, no início de 1945, ainda é um jovem escritor aspirante de 20 anos de idade. Kawabata, por outro lado, já é um autor reconhecido, de 46 anos, com várias obras publicadas – um autor que se tornaria, em 1968, o primeiro escritor japonês a receber o prêmio Nobel de Literatura.


A partir da correspondência, nasce uma relação de amizade íntima e familiar. Uma relação tão particular em que a mulher de Kawabata se encarrega de “encontrar” uma esposa para Mishima com objetivo de disfarçar sua homossexualidade.


Nessa troca de cartas, logo se estabelece uma relação de mestre e discípulo. Uma relação tanto intelectual quanto afetiva. Kawabata como mestre. Mishima como discípulo. Uma prática muito usual no Japão da época conhecida pelo termo “Bundan”. Uma prática do mundo literário onde escritores constituídos acolhiam jovens autores no ensinamento de literatura e no auxílio da publicação dos primeiros livros.


Yukio Mishima, à esquerda, e Yasunari Kawabata, à direita: amizade, afinidades literárias e crise no momento da escolha do Nobel
Yukio Mishima, à esquerda, e Yasunari Kawabata, à direita: amizade, afinidades literárias e crise no momento da escolha do Nobel | Reprodução
 


Uma relação que assume grande dimensão ao longo das décadas. Com o tempo, a literatura de Kawabata e de Mishima ganha grandes proporções. Os dois se tornam os principais responsáveis pela universalização da literatura japonesa moderna. Ou seja, responsáveis pela literatura japonesa ganhar o mundo, ser traduzida em várias línguas. Mas chega o momento em que apenas um deles deve ser indicado ao Nobel de Literatura. Então a relação de mestre e discípulo entra em crise.


Numa das cartas de “Correspondência 1945 – 1970”, Kawabata solicita que Mishima escreva o documento em que ele seja o indicado ao prêmio. Mishima, mesmo desejando que ele próprio seja o indicado, cumpre a solicitação e escreve um texto belíssimo sobre a literatura de Kawabata. Um texto que acaba auxiliando na escolha de Kawabata para o Nobel de Literatura. Esse emblemático texto integra o volume.


O livro revela um fato pouco conhecido: Yukio Mishima esteve no Brasil. O relato aparece numa carta em que Mishima conta a Kawabata sobre sua viagem ao Brasil ocorrida entre janeiro e fevereiro de 1952. No país ficou hospedado na fazenda de Toshihiro Tarama (neto do Imperador Meiji que emigrou para o Brasil em 1947) localizada no município de Lins, cidade do interior de São Paulo.


Na carta, escreveu: “Eu estava seguro de que pegaria uma enxada para trabalhar nas terras de Tarama, contudo cheguei tão cansado que não houve como fazê-lo, e aqui apenas descanso. Os hábitos das formigas-cortadeiras são interessantes e, apesar de dizerem que aqui há também beija-flores e tatus, ainda não os avistei.”


Sobre as características dos habitantes da região, anotou: “Quanto à América do Sul, me apraz sobremaneira o nível de descontração dos brasileiros. Não há um bando tão simpático como esse, mesmo considerando os japoneses que aqui vivem, agradáveis com seus ares de despreocupação.”


Sobre a língua, registrou na carta: “Em relação à língua nativa, o português, apesar de ter muitas vogais, a pronúncia é muito próxima do japonês, de modo que não soa assim tão artificial mesmo quando nós japoneses a falamos.”


Sua intenção era conhecer a região de fronteira do Mato Grosso com a Bolívia, uma região que descreve como “um lugar onde dizem que se aventuraram menos japoneses do que se possa contar nos dedos das mãos”. Seu desejo era também conhecer a festa carnavalesca da cidade do Rio de Janeiro: “Mal posso esperar para ver o Carnaval do Rio”.


Um elemento marcante da relação entre os dois escritores está no de que Mishima e Kawabata optaram pela morte voluntária. Em 1970, Mishima, comandando o grupo paramilitar Sociedade do Escudo, invadiu a sede do exército de Tóquio exigindo o retorno do poder imperial. Diante do fracasso do movimento, cometeu o seppuku (haraquiri) ao lado de outros militares. Dois anos depois, em 1972, Yasunari Kawabata, com problemas de saúde, cometeu suicídio em sua residência.


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Serviço:

“Correspondência 1945 – 1970”

Autores – Yasunari Kawabata e Yukio Mishima

Editora – Estação Liberdade

Tradução e notas – Fernando Garcia

Introdução – Shoichi Saeki

Posfácio – Donatella Natili

Páginas – 256

Quanto – R$ 56


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