Dois escritores com os pés no movimento
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de janeiro de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Dois escritores paranaenses bem-sucedidos na carreira, Cristovão Tezza e Wilson Bueno, além da arte em si, têm uma segunda coincidência em suas vidas: ambos experimentaram o gosto da aventura hippie. Cada qual no seu tempo, na sua geografia e ocupando-se de atividades distintas. Hoje, olhando para esse tempo, cada qual tem uma visão diferente do que se passou.
Tezza não aceita a condição de hippie para ele nem para ninguém, por acreditar que o movimento surgido nos EUA não vingou no Brasil. Wilson Bueno afirma ter sido um dos bichos grilos, cuja finalidade era enfrentar a ditadura militar, sob o lema paz e amor.
Cristovão Tezza ingressou na onda em 1968, aos 15 anos de idade. Se eu fosse uns três ou quatro anos mais velho, talvez tivesse me envolvido com a luta armada ou os movimentos políticos da época, avalia. Apesar de imberbe, dedicava seu tempo ao movimento estudantil e às artes. Minha vida alternativa, digamos assim, foi o teatro, recorda. A estréia aconteceu numa peça com Denise Stocklos, e Tezza cuidou da iluminação.
Ao deixar o Colégio Estadual do Paraná, o jovem não direcionou-se para a universidade. Influenciado pelo guru Wilson Rio Apa, que arrebanhava todos os jovens malucos da época, autor de romances e peças teatrais, foi tentar ser piloto da Marinha Mercante.
Não aguentou o regime militar e fugiu, falsificando a assinatura da mãe. Voltou para a comunidade de Apa, em Antonina. Foi quando comecei a trabalhar mais minha vida alternativa, com um projeto artístico, literário e teatral. A literatura andava lado a lado, mas o rapaz tinha outros planos: fez um curso de relojoeiro e abriu uma porta em Antonina e, inspirado num poema de García Lorca, batizou-a de Cinco em Ponto. Com essa disposição poética, é claro que o comércio não deu certo.
Os anos passados em comunidade não refletem necessariamente o movimento americano, segundo a visão de Tezza. A idéia do hippie a rigor, como se vê historicamente, não vingou aqui. Havia uma cultura alternativa onde você escapava do sistema.
Nesse desvio havia uma espécie de bifurcação: uma parte seguiu o caminho do engajamento político e outra parte acabou indo para as artes. Os ativistas intelectuais tomavam o impulso artístico como um estilo de vida; a arte passou a representar a própria existência. Não interessava tanto se era escritor, poeta, ator. O importante era que você fizesse da sua vida uma obra de arte, esse é um aspecto interessante daquele tempo, daquela geração, considera.
A arte era uma forma de denúncia, maneira de revelar as faces mais profundas da existência. A vida era uma aventura ética, antes de ser uma aventura estética. Então a idéia da cultura hippie, propriamente dita, não existia, conforme o escritor. O que havia realmente era a utopia a que os jovens se entregavam sem reservas nem pudores. Era muito autêntico, muito forte.
A visão da utopia desapareceu; não chegou às novas gerações. Professor universitário em constante contato com os jovens, Tezza percebe que o imaginário é diferente. As pessoas hoje são mais pragmáticas, menos comunitárias no sentido de projetos comuns. São mais individualistas. Mas não estou colocando isso em juízo de valor. Acho uma bobagem ficar arrancando os cabelos e lamentando: no meu tempo que era bom.
Enquanto desfazia-se a comunidade de Rio Apa em Antonina, Wilson Bueno ganhava a estrada. Depois de deixar a acanhada Curitiba para viver no esfuziante Rio de Janeiro, tornou-se hippie para contestar a ditadura.
Era uma saída ao sufoco, mas ao mesmo tempo fazíamos uma resistência até mais suicida que os companheiros da luta armada. Não nos escondíamos, estávamos expostos de cara lavada. Wilson e outros tantos da comunidade a que pertencia, foram de carona até Arembepe, na Bahia, geograficamente o supra-sumo do movimento hippie brasileiro.
Viveu lá durante seis meses. Ele conta que Salvador era uma cidade hiper reacionária. Muitas vezes fomos recebidos a pedradas. Entre seus amigos estavam o bailarino Lennie Dalle e os andróginos do grupo Dzi Croquettes. Depois da festa, o sufoco da luta armada. O ex-hippie partiu para o outro lado do radicalismo, sempre motivado pela resistência.
De tudo isso ficou uma frustração enorme, avalia hoje. Toda a luta, todo o sonho, todo empenho para a conquista de um mundo melhor, acabou não vingando. Ficou a intenção de ser feliz, a intenção cantada na voz estrindente de Janis Joplin, que era a de criar um mundo onde houvesse apenas o amor, e não a guerra. Dessa história toda não restou um cêntimo que fosse de nossa utopia.


