"Dois Córregos" marca o amadurecimento de Ingra Liberato
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domingo, 01 de agosto de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 02 (AE) - Ingra Liberato tem vivido entre o Rio e São Paulo, por conta das gravações da novela "Louca Paixão", da Record. Ele gravou seu último capítulo na semana passada, mas ainda continua ligada à cidade por causa do lançamento do novo filme de Carlos Reichenbach, "Dois Córregos". Ingra faz a personagem Teresa. O filme é um tanto decepcionante, mas bonito. Decepciona porque, de certa maneira, tentando fazer um cinema inspirado no mestre italiano Valerio Zurlini, Reichenbach dilui a política por meio dos sentimentos.
Mas "Dois Córregos" tem muitos momentos fortes e seduz pelo trabalho do diretor com as atrizes. Ingra está ótima. Não só ela. Há duas garotas no filme, ambas estreantes: Luciana Brasil e Vanessa Goulart. Foram treinadas pela especialista Fátima Toledo. Exibem uma segurança de veteranas. De certa maneira, o trabalho com as atrizes de "Dois Córregos" redime Reichenbach do trabalho insatisfatório com os atores de seu longa precedente, "Alma Corsária". "Dois Córregos" será exibido fora de concurso no Festival de Gramado, que começa no dia 8, no Rio Grande do Sul. Vai passar no dia 13. No mesmo dia, estará sendo exibido no Festival de Locarno, na Suíça. Ingra, com certeza, receberá elogios. Ela sabe que fez um bom trabalho na composição da personagem Teresa. É ela e não é. Ingra tem um lado muito forte de mãe. Gosta de organizar tudo, de observar, de resguardar aqueles a quem ama. Teresa tem tudo isso. Ingra chegou a imaginar uma característica comum para a personagem. Como, no horóscopo, seu ascendente é Câncer, ela imaginou que esse é o signo de Teresa. Mas as diferenças também são fortes. "Teresa é muito passiva, tem uma tendência a servir".
Ingra não é assim. Ou, melhor, admite que até já foi, mas não quer ser assim. Não acha bom. Em nome da paixão e do amor, ela já aceitou submeter-se aos homens de sua vida. São experiências passadas. A nova Ingra é uma mulher mais consciente de si mesma, de sua força, até do seu talento. Quando foi chamada por Reichenbach para fazer o filme, ela não o conhecia. Nem ao seu trabalho. Preferiu permanecer na ignorância. Só assistiu a "Filme Demência" depois da rodagem de "Dois Córregos". Não queria ser influenciada pelo que seriam suas referências sobre o diretor.
Ela conta que Carlão, como é chamado o diretor, falava muito sobre o cinema de Zurlini com seus atores, durante a rodagem. "A Primeira Noite de Tranquilidade", com Alain Delon, foi a confessada fonte de influência em que ele se baseou. "Mas o Carlão falava mais de outro filme, com a Claudia Cardinale". Ingra refere-se a "A Garota com a Valise", outro dos clássicos do diretor italiano que morreu em 1982. De tanto ouvir falar em Zurlini, ela admite que aprendeu a gostar do cinema dele, mesmo sem ver.
Diz que, quando foi contactada por Reichenbach, conversaram sobre o filme e a personagem, mas passou-se muito tempo antes que ele a chamasse, dizendo que queria que ela fizesse Teresa. "Foram uns seis, sete meses de espera, mas eu fiquei na minha; não sou de ficar ligando, cobrando, pressionando; deixei as coisas rolarem". Dedicação - A princípio, ela também pensou em fazer um trabalho de composição da personagem com Fátima Toledo. Depois, conversando com Reichenbach, chegou à conclusão que não. Fátima possui uma personalidade muito forte, faz um trabalho muito intenso com os atores. Ingra sabe disso porque se preparou com ela para fazer "O Cangaceiro", de Anibal Massaini. Como Fátima já preparava as duas atrizes jovens, ela e o diretor chegaram à conclusão de que seria uma influência demasiado forte sobre o resultado do filme se também treinasse Ingra.
A atriz conta que se preparou sozinha e com muito afinco. Recebe os elogios para o seu trabalho em "Dois Córregos" como uma conquista importante. Como tem uma ligação muito forte com a música, Ingra gosta de comparar suas personagens a instrumentos musicais. No caso de Teresa decidiu que ela seria como um piano, mais até do que a garota que é pianista na história. Como Ivan Lins ainda não havia composto a trilha de "Dois Córregos" ("Mas ele compôs quando o filme estava no meio, foi ao set com a gente, gravou partes da música, aquela coisa do piano"), preparou-se ouvindo a trilha de Michael Nyman justamente para "O Piano", de Jane Campion. "Tem tudo a ver com a maneira como eu senti o filme de Carlão e a personagem".
É uma música que transita pelo filme, ela acrescenta. Sem a música ela talvez não se sentisse tão à vontade para expressar as emoções de Teresa. Atriz de poucos, mas marcantes, papéis na TV, Ingra foi a Tonha jovem de "Tieta", a Madeleine, também jovem, de "Pantanal" e, depois de ter sido a sedutora Texíopen na minissérie "Canto das Sereias", ganhou o papel de protagonista, fazendo a peã de "A História de Ana Raio e Zé Trovão". Agora faz a vilã de "Louca Paixão", Soninha 38, cuja morte virou assunto da mídia.
Não é uma vilã convencional, nem Ingra gostaria que fosse. A personagem expressa mais a revolta dos excluídos. Teve a experiência de viver na rua, brigar dentro da cadeia. "Mas o bom é que ela recebeu um tratamento humano do autor e do diretor". Ingra não poupa elogios a Yves Dumont e Jacques Lagoa. Ela gravou suas últimas cenas na quarta-feira. A vilã passou por um processo de regeneração, por meio da influência de uma amiga mais madura, que arranjou na cadeia. "Essa amizade é decisiva no seu crescimento como pessoa". Ingra observa: "Não quero criar um estereótipo do personagem malvado". Acha que o homem não nasceu para o mal. A natureza do ser humano é pela construção, não pela destruição, filosofa. Pais cineastas - Depois do filme de Reichenbach, somou mais dois ao seu currículo. Interpretou um dos episódios de "Histórias da Bahia" (o de José Araripe Jr.) e fez a irmã mais jovem no filme autobiográfico de Florinda Bolkan, "Eu não Conhecia Tururu", rodado no Ceará. Adorou o trabalho. "Florinda é uma mulher fascinante, que trouxe para o cinema brasileiro sua experiência na Itália". Florinda teve a assessoria técnica de Amilcar Claro. "Foi legal trabalhar com ele", resume Ingra. O filme baiano também lhe cala fundo porque evoca suas origens, em Salvador. "É um filme todo feito com diretores e atores baianos; minha história se chama "O Pai do Rock" e acho que ficou bem bonita".
Para ela, não há muita diferença entre cinema e TV. Ingra não escolhe seus trabalhos pelo veículo. "O que conta é a direção e os colegas, além, é claro, do próprio papel". Mas o cinema é forte em sua vida: "Adoro". O cinema, na verdade, é um assunto de família para os Liberato. Ingra é filha de Alba e Chico Liberato, um casal de cineastas da Bahia. Os dois trabalham com animação. Chico leva o crédito pela direção do longa "Boi Aruá", Alba pelo curta "Muça Gambira". É uma família que vive e respira cinema. Após um início tatibitate em "O Cangaceiro", Ingra prova, com "Dois Córregos", que também nasceu para o cinema.


