Dois CDs celebram a riqueza cultural do RN
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 26 (AE) - Entre muitas iniciativas dedicadas ao registro e cultivo da cultura popular, destacam-se dois lançamentos da fundação Hélio Galvão, de Natal, Rio Grande do Norte, produções assinadas pela empresa Scritorin: "Zambê", cocos de zambê gravados na localidade de Cabeceiras, em Tibau do Sul, e "Nação Potyguar", coleção de homenagens prestadas a Natal por artistas de origens diversas. "Zambê" tem patrocínio da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte e do Sesi. Os dois discos, em todo caso, são exemplos concretos do que secretarias de Cultura podem fazer com o dinheiro público (e o da renúncia fiscal).
São Paulo, para ficar no exemplo mais próximo, tem patrimônio cultural riquíssimo e quase nada se faz para sustentá-lo, preservá-lo, estudá-lo, torná-lo conhecido e fértil. Em tempo, exceção que confirma a regra, no ano passado a Caixa Econômica, a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e a Comunidade Solidária uniram-se pra fazer o CD "Memória Viva Guarani", gravado na aldeia Jaexaá Porã, beleza de trabalho, infelizmente sem qualquer divulgação. Não foi posto à venda e não há qualquer informação sobre a maneira de obtê-lo. É como se não existisse.
O CD "Zambê" acompanha o coco de Zambê do início - a "Saudação", o boa noite, o aviso da saída ("Vou pro mato, boa noite/ Boa noite que Deus deu") - a "Despedida", com fotos e pequenos textos elucidativos: "Pau-furado é percutido por Mestre Geraldo, também tirador de voz-solo dos cocos; junto com a chama, necessita de aquecimento para atingir um timbre próprio; para isso, faz-se uma pequena fogueira onde os instrumentos de couro bovino são proximamente (sic) colocados, absorvendo o calor".
Outro texto lembra que a dança do coco é exclusivamente masculina e somente na dança do cangaloê se admite a presença de um par de dançarinos no centro da roda. Quem gosta de rodas de samba reconhece os tambores, os timbres vocais, os ritos da cerimônia. No coco de Zambê preserva-se a origem disso, num formato muito próximo do secular, primitivo, seminal.
"Nação Potyguar" já trabalha sobre essa e outras tradições. A primeira faixa é um fado - "Serenata do Pescador"
de Eduardo Medeiros e Othoniel Meneses. O disco celebra os 400 anos de Natal. Reúne mais de 60 artistas, alguns internacionalmente reconhecidos, como Hermeto Paschoal ou Antônio Nóbrega. O primeiro é alagoano, o segundo, pernambucano. Dividido em cinco partes (Império do Litoral, Reinado do Sertão, Entoar dos Cantos, Celebração de Danças e 400 Anos - Natal, a Festa), tem vários outros intérpretes não-potiguares, como os baianos Gereba e Xangai, o alagoano Chico César, o pernambucano Antúlio Madureira, o grupo ¶nima, de São Paulo.
Tem cocos, repentes, arrasta-pés, toadas, choros, dobrados, valsas, a riqueza da história musical do Rio Grande do Norte. Resgata-se a história na valsa "Royal Cinema", de Tonheca Dantas, executada pelo Quarteto de Cordas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A obra de Tonheca, mestre de banda de Seridó, clarinetista, é bisavô de Antônio e Anúlio Madureira, foi muito executada nos anos 30.
Por outro lado, há composições especiais, como a música de Gereba para "Não Gosto de Sertão Verde", de Câmara Cascudo, e a de Antônio Nóbrega para a de Ariano Suassuna. "A Morte do Touro da Mão de Pau". Na memória e na reconstrução da memória - que emoção no dobrado "Estréia", de Felinto Lúcio Dantas - , cada faixa engrandece o projeto. Para obter os dois volumes, fale com a Scriprorin pelo telefone (0--84) 211-7712 ou com a Fundação Hélio Galvão pelo (0--84) 222-2648.


