Na semana passada a literatura brasileira perdeu dois grandes escritores. Rubem Fonseca falecido no dia 15, aos 94 anos de idade, e Luiz Alfredo Garcia-Roza falecido dia 16, aos 83 anos.

Não morreram vítimas do vírus covid-19, mas em decorrências naturais da velhice. Faleceram no Rio de Janeiro, cidade em que passaram a totalidade de suas vidas.

É impossível falar de dois gêneros literários como o conto e o romance policial dentro da literatura brasileira sem passar ela obra de Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza. Embora distintas, a obra dos dois possuem várias conexões.

O enredo policial está presente na escrita de ambos.

Rubem Fonseca apresenta a violência urbana de uma forma extremamente crua
Rubem Fonseca apresenta a violência urbana de uma forma extremamente crua | Foto: Ricardo Borges/ Folhapress

Fonseca apresenta a violência urbana de maneira extremamente crua. Narra a violência do lado de dentro. Garcia-Roza narra a violência do lado de fora, através de um olhar externo que procura desvendar os crimes. Os dois fizeram das ruas da cidade do Rio de Janeiro o ambiente de seus contos e romances. Garcia-Roza levou mais fundo essa empreitada e ambientou seus 12 romances em um único bairro carioca: Copacabana.

Ambos criaram típicos personagens do gênero policial. Fonseca criou o advogado Mandrake, sujeito que conhece o submundo carioca como a palma da mão. Garcia-Roza criou o delegado Espinosa, sujeito pacato, amante dos livros, capaz de desvendar os crimes intrincados da delegacia de polícia de Copacabana.

Rubem Fonseca nasceu em 1925, na cidade mineira de Juiz de Fora. Na primeira infância mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, cidade onde viveu o resto da vida. Formado em Direito, atuou como comissário de polícia na localidade de São Cristovão. Publicou seu primeiro livro, “Os Prisioneiros”, em 1963.

Na década de 1970 lançou dois volumes de contos que o consagraram como um dos grandes contistas da literatura brasileira do século 20: “Feliz Ano Novo (1975) e “O Cobrador” (1979). A linguagem desenvolvida por Rubem Fonseca, bem como sua peculiar abordagem da violência urbana, seria tão inovadora que influenciaria duas ou três gerações de escritores subsequentes. Em seus contos há uma convivência incomum entre violência e humanidade, entre barbárie e civilização. Com uma narrativa de soluções imprevistas, apresentava a “democratização da violência” na sociedade brasileira.

No conto “O Cobrador”, que integra o livro homônimo, por exemplo, Fonseca apresenta o personagem principal chegando ao dentista com dor de dente. O profissional afirma que a única solução é extrair o dente podre. Na saída do consultório, o dentista cobra o serviço, mas o sujeito, num surto, diz que não vai pagar e que, a partir daquele momento não vai pagar mais nada, apenas cobrar tudo aquilo que ele nunca teve em sua miserável vida. E assim começa a cometer os mais cruéis, frios e gratuitos assassinatos, escolhendo como vítimas os ricos que tudo possuem. E segue derramando sangue, cobrando a escola que não teve, o carro que não conseguiu comprar, a piscina que nunca teve, o restaurante que nunca conseguiu entrar, etc.

Luiz Alfredo Garcia-Roza narra a violência a partir de um olhar externo que procura desvendar o crime
Luiz Alfredo Garcia-Roza narra a violência a partir de um olhar externo que procura desvendar o crime | Foto: Marcos Michael/ Folhapress

Psicanálise do crime

Já Garcia-Roza, nasceu em 1936 no Rio de Janeiro, desenvolveu uma carreira de psicanalista e professor universitário até aos 60 anos de idade, quando publicou seu primeiro romance, “O Silêncio da Chuva”, em 1996. A obra ganhou o prêmio Jabuti de 1997.

Garcia-Roza publicou 12 romances policiais. Antes de falecer deixou sua última obra concluída, “A Última Mulher”, publicada pela Companhia das Letras em 2019.

A totalidade de seus romances é protagonizada pelo delegado Espinosa. Há apenas uma única exceção, “Berenice Procura”, onde a protagonista é uma motorista de táxis que assume o papel de detetive para solucionar o assassinato nas areias da praia da praia de Copacabana.

A característica da escrita de Garcia-Roza está em colocar um perfil psicológico nas camadas das personagens. E isso sem parecer teórico ou ensaístico. O objetivo é apenas narrar a história de um crime que precisa ser solucionado. Um crime onde todos os envolvidos possuem uma psique, assim como aqueles que desejam desvendá-lo.

Fragmentos

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.

Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento em frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loira reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.”

(Fragmento do conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca)

“Uma das mãos segurava a arma apontada para o teto enquanto a outra deslizava pela parede, guiando os passos. Um som de voz saía pela porta entreaberta do apartamento uma dezena de metros adiante deles, mas a respiração do colega logo atrás não o deixava ouvir claramente. A mensagem recebida pelo rádio do carro falava em morte por arma de fogo. Pensou em como aquelas palavras se aplicavam a tudo em seu dia-a-dia. Desde que fora designado para o serviço de patrulha nas ruas não vira outra coisa que não fosse violência, e morte por arma de fogo nem sempre era a maior das violências. O pouco treinamento que tivera antes de ir para a rua não lhe possibilitara dar mais de meia dúzia de tiros – economia de munição, diziam –, mas incluía o que chamavam de preparação psicológica, sendo que a moça que fazia as palestras para os recrutas usava a palavra psicologia como usava batom: para enfeitar a boca.”

(Fragmento do romance “Uma Janela em Copacabana”, de Luiz Alfredo Garcia-Roza)

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