DOIDA POR OPÇÃO
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2001
Leandro Calixto TV Press 
Para integrar o elenco de Porto dos Milagres, Arlete Salles fez uma exigência: que a personagem fosse uma mulher totalmente louca. E no papel da impagável Augusta Eugênia ela vem dando um banho de interpretação
Arlete Salles estava cansada da pobreza. Nos últimos tempos, a atriz só vinha interpretando na televisão mulheres sofridas e sem glamour, como a vendedora de pamonha Tonha, em Meu Bem Querer, ou a freira Celeste, em Terra Nostra. Por isso mesmo, quando os autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares perguntaram a ela que personagem gostaria de fazer em Porto dos Milagres, Arlete respondeu na lata: Uma mulher totalmente louca. O desejo da atriz com 37 anos de profissão foi realizado na forma da debochada Augusta Eugênia. Estava morrendo de vontade de interpretar uma mulher extravagante, reconhece a atriz.
Para Arlete, a decadente socialite Augusta Eugênia é mais que uma vilã ensandecida. Do alto dos seus 60 anos de idade, Arlete considera este como um dos mais importantes papéis de sua galeria de personagens na televisão. Ela é cheia de vertentes. E também funciona como uma crítica social. Tem muitas socialites que, mesmo decadentes, não perdem a pose, argumenta. Arlete não deixa de criticar, porém, a própria produção. Ela aponta como falha, por exemplo, o pequeno número de atores negros que atuam na trama, que é ambientada na Bahia. Realmente o número poderia ser mas expressivo. Mas os negros têm de lutar um pouco mais também, pondera a atriz.
Arlete grava em média quatro dias por semana. Isso porque quando não está trabalhando nos estúdios do Projac, Zona Oeste do Rio de Janeiro, excursiona pelo país com a peça A Vida Passa, de Miguel Falabella. O espetáculo é uma continuação da bem-sucedida montagem de A Partilha, encenado pela primeira vez em 1990. O ritmo de trabalho acaba ficando muito puxado. Mas quando a gente faz o que gosta, tudo se torna mais prazeroso, completa Arlete. Essa lógica de Arlete justifica, por exemplo, que além de atuar no espetáculo, ela divida também a função de produtora com Falabella e as outras três atrizes do elenco, Susana Vieira, Natália do Valle e Tereza Pfiffer.
Uma vilã engraçada ganha a simpatia do público?
Sem dúvida. O grande álibi e respaldo deste personagem realmente é a comédia e o humor, que estão flutuando o tempo todo pela trama. Acho que, por isso, ela não chega a ser exatamente uma vilã. Acredito que a Augusta Eugênia é um dos melhores momentos de comédia na novela, embora ela não seja uma pessoa com grandes virtudes. Ela tem até o seu lado sensível quando o filho está em questão. Ali realmente ela tem um amor verdadeiro. Mas o grande trunfo da personagem é o bom humor. O público me aborda nas ruas com muita simpatia. Sempre com uma atenção especial. Acho que por causa do humor, que é importante em todos os momentos da vida.
Mas você teve alguma preocupação em não deixar a personagem caricata?
Tem atriz que tem esta natureza de deixar os personagens deste tipo. Acho que é meu caso. Sou uma comediante inata. Então, as minhas personagens acabam sendo engraçadas mesmo. Mas é claro que a Augusta Eugênia é uma personagem over. Ela sempre tem um grande exagero na forma de se vestir, no falar e também no sentir as coisas. A Augusta também tem um desatino na maneira de se maquiar. Só que, para ser bem sincera, procurei não caricaturar a personagem. Não quero que ela seja caricatura de nada. Ela tem de ser verdadeira, ter alma, mesmo que seja feia. A Augusta Eugênia é uma mulher egocêntrica, dura e que tem um apelo destemido pelas coisas materiais.
Quando você recebeu a sinopse, ela já tinha esta vertente cômica ou foi você quem foi dando um tom engraçado para a personagem?
Poderia até ter feito menos engraçada. Depende muito da natureza da intérprete. Se eu fosse menos comediante, seria menos engraçada. Mas o humor está ali escrito pelos autores. Aliás, quando fui convidada para fazer Porto dos Milagres, o Aguinaldo Silva e o Ricardo Linhares me disseram que tinham dois personagens para eu escolher: uma mulher extremamente boa, aquela mãezona que todo mundo gostaria de ter, ou uma maluca. Na hora, respondi: Quero fazer a maluca!. Há muito tempo, estava fazendo mulheres normais na televisão. Mães sofridas ou sem glamour. Neste momento, não pretendia interpretar um papel deste tipo. Precisava mudar urgentemente. Até mesmo por motivação. Sou inquieta por natureza. Acho que o próprio público queria me ver num personagem diferente. Fazer um tipo como a Augusta está sendo muito estimulante. Ela é o tipo de personagem que nos permite tudo. A Eugênia fala de coisas sérias, da intolerância, da política e também de preconceito. Fiz uma cena maravilhosa um dias destes, em que ela comia caviar. Como já fazia muito tempo que ela não comia, foi uma delícia. Foi um verdadeiro êxtase para ela. Conheço muita gente assim, que perdeu tudo, mas que não perde a pose. São pessoas que não conseguem desenvolver outros valores. É lamentável.
O Aguinaldo Silva vem sendo criticado por utilizar poucos negros numa novela ambientada na Bahia. Como você vê esta polêmica?
Realmente acho que o espaço para atores negros poderia ser maior na televisão, como em todos os setores da sociedade. Mas acho que os negros precisam também lutar um pouco mais por seus direitos que, aliás, são merecidos. Não podem deixar apenas na dependência dos outros, no caso, do governo. Só que não acho que pode ser por imposição. Tem de ser naturalmente. No geral, o brasileiro é muito acomodado. Mas independentemente de tudo isto, o número de negros na televisão realmente é muito pequeno. Como, aliás, em todas as obras. Não posso nem assegurar se é por preconceito.
Existe algum preconceito contra mulheres acima dos 60 anos ou os autores reservam bons papéis para elas?
Esta preocupação eu tive quando era mais jovem. Quando completei 30 anos, pensei: Vou trabalhar muito agora porque quando estiver com 50 não vou conseguir mais trabalho. Aos 60, então, vou estar uma velhinha e ninguém vai mais me querer para nada. Só que quando a gente é jovem, a gente é muito preconceituosa com a idade. Felizmente, não está acontecendo isto comigo nem com a maioria das atrizes com minha faixa etária. Não existe uma regra irreversível. Agora, por exemplo, estou trabalhando tanto que nem dou conta que já tenho 60 anos.
Com 37 anos de carreira na televisão, o que falta para você fazer?
Quando era mais jovem, ficava muito ressentida por nunca ter feito personagens amorosas e ingênuas. Nunca fiz um par romântico de uma história com quase 30 novelas no currículo. Sempre sonhei em protagonizar uma linda história de amor. Só que tenho uma voz muito grave. Acho que acabei espantando muita gente. Mas tenho certeza que não foi perseguição. Foi falta de sorte mesmo. Nunca calhou para eu fazer um papel deste tipo. Paciência...
De onde você busca motivação para continuar atuando?
A minha própria profissão é extremamente motivante. É tão apaixonante, surpreendente e nova que a cada trabalho vem um novo encontro e uma nova história. Na vida também não há nada igual. Então, cada trabalho é uma nova busca e um novo estudo para mim. Exige outros recursos e novos estímulos. Isto é fundamental. Para mim, um trabalho jamais pode se tornar rotineiro. Caso contrário, perde a graça. Quando o ator não encontrar mais motivação para atuar, é melhor fazer outra coisa. O ofício de representar é tudo para mim.


