DOGMA, OPUS 3, MODERADO
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 
Depois da estréia com Os Idiotas, de Lars von Trier, e do sucesso de Festen (Festa em Família), de Thomas Vinterberg, ambos apresentados em Cannes-98 pela primeira vez, esperava-se com impaciência o terceiro passo do Dogma-95, manifesto radical assinado em Copenhague em 13 de março de 95 tentando reenquadrar o cinema em alguns fundamentos, ou voto de castidade, vale dizer, a negação da mainstream hollywoodiana em favor de uma espécie de processo depurativo. Os mandamentos contidos na declaração de princípios foram vistos na prática e fizeram muito barulho - filmagem em locação, nenhuma iluminação artificial (proibido o uso de filtros e lentes), não ao filme de gênero, som sempre produzido pela imagem, câmera na mão, película tradicional em 35 mm, filmagens em cores, ação sempre aqui e agora e nunca artificial, e o nome do diretor jamais creditado. E o terceiro exemplar Dogma ficou pronto afinal ano passado pelas mãos de outro signatário do manifesto, Soren Kragh-Jacobsen.
Embora professando o credo, Mifune (em cartaz em Curitiba, veja a programação de cinema na página 6) já não tem a rigidez dogmática dos experimentos radiciais de von Trier e Vinterberg. A história: um yuppie de Copenhague está para se casar quando morre o pai. Ele vai para o campo para decidir sobre o futuro de um irmão levemente débil mental e sobre a fazenda que herdou. Uma solução provisória encontrada é confiar um e outro a uma jovem governanta, que acaba por retê-lo também na fazenda.
Sob a forma de um conto cruel da vida moderna, Mifune - uma referência ao ator-fetiche de Akira Kurosawa, Toshiro Mifune, lembrança dividida pelos dois irmãos - mete o dedo nas consequências da ambição. Ter sucesso implica em tal acúmulo de renúncias, de compromissos e de ignomínias que a vida se torna insuportável. É tudo simples como uma fábula, e talvez por isso funcione tão bem.
Os princípios do Dogma produzem efeitos benéficos, especialmente no naturalismo do jogo dos atores. A imagem está bem mais confortável para a retina do espectador, com uma fotografia bem menos trêmula que em Os Idiotas e menos granulada do que Festa em Família. O resultado é uma sóbria intensidade.


