Documentários são atração do "Curta Às Seis"
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Lui Zanin Oricchio 
São Paulo, 22 (AE) - O programa "Curta Às Seis", do Espaço Unibanco, em São Paulo, traz esta semana um módulo de documentários recentes. São quatro títulos: "Capeta Caribé", de Agnaldo "Siri" Azevedo; "Simião Martiniano, o Camelô do Cinema", de Hilton Lacerda e Clara Angélica; "Maracatu, Maracatus", de Marcelo Gomes, e "Histórias de Avá - O Povo Invisível", de Bernardo Palmeiro. Os filmes podem ser vistos sempre às 18 horas, na sala 4 do Anexo do Espaço. A entrada é gratuita.
Dos quatro curtas, pode-se dizer que todos estão fortemente enraizados na realidade brasileira. A começar por "Capeta Caribé", do baiano Agnaldo Azevedo, morto há dois anos. "Siri", como todo mundo o conhecia, foi assistente de Gláuber Rocha e, com "Capeta Caribé", realizou seu filme mais bem-acabado. Fala de uma figura queridíssima da Bahia, o pintor Caribé, argentino de nascimento e mais baiano que muito soteropolitano da gema.
A história de Caribé foi a de amor por uma cidade e por um país. Conheceu a Bahia e nunca mais se foi. Pintava, andava pelos bares, pelos candomblés, jogava capoeira, namorava. Siri acompanha os passos do mestre por uma Salvador mágica, cheia de malemolência e sabor. Uma cidade para se viver. Essa mesma que está sendo sistematicamente destruída pela especulação imobiliária, como denuncia no fim do filme, transformado em libelo em suas últimas sequências.
Da Bahia, passa-se ao Recife, representado na mostra por dois filmes. O primeiro, "Simião Martiniano", resgata um personagem raro. Simião é vendedor ambulante de discos usados. Aqueles bolachões antigos de vinil. Nas horas vagas, torna-se cineasta. Ou videomaker, como se quiser, porque registra suas histórias em VHS. São enredos primários, de títulos engraçados como "O Herói Trancado", "A Rede Maldita" e "Vagabundo Faixa-Preta". Muita ação, algum romance, pontos de tensão. Ele sabe o que faz. Vende as fitas na mesma banquinha dos discos e ainda promove sessões públicas - a preços populares.
O bonito do documentário de Lacerda e Clara é que não cai na tentação fácil de folclorizar o personagem. Claro, Simião é engraçado mesmo e o público ri da sua história, tragicômica como a de tantos brasileiros: a viagem para Recife em pau-de-arara, a luta pela sobrevivência a qualquer custo e a vida modesta, mas digna que leva hoje. Acima de toda essa saga comum, destaca-se o seu amor pelo cinema. Intuitivo, Simião realiza seu sonho e apresenta um autêntico cinema popular. Vale a pena conhecer a sua história, que é contada por ele mesmo e em parte encenada.
Também do Recife é o excelente "Maracatu, Maracatus", de Marcelo Gomes. O filme é um daqueles incluídos sob o rótulo "mangue beat", ou seja, inspirados, de alguma forma, no mixer sonoro promovido por Chico Science & Cia. Gomes sai em procura das manifestações tradicionais do maracatu e descobre que elas já estão devidamente aclimatadas aos novos tempos. As mesmas pessoas que usam as indumentárias tradicionais se divertem tocando e cantando rap, por exemplo. É o tipo de filme que procura demonstrar o parentesco entre a parabólica e a raiz, o que cai muito bem a um cinema que procura se renovar.
Além da temática, o que se destaca em "Maracatu, Maracatus" é o senso de ritmo - agitado, flertando com o novo, com vocação de diálogo com a juventude. O longa-metragem emblemático desse "movimento" que não se leva tão a sério assim (e essa talvez seja a sua vantagem) é "Baile Perfumado", de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, membros da mesma turma de Marcelo Gomes.
"Histórias de Avá - O Povo Invisível" desloca o interesse da mostra para a questão indígena. Com tratamento sensível, o diretor Bernardo Palmeiro recria rituais e momentos comuns da tribo Avá-Canoeiro, ameaçada de extinção. Um bonito trabalho.


