O documentário entrou, definitivamente, em cartaz. A lista dos dez filmes nacionais de maior bilheteria este ano traz dois títulos do gênero, uma proeza em se tratando de uma produção considerada menor diante do cinema ficcional e mantida quase sempre à margem do circuito cultural.
Para alguns, 2002 foi o ano do documentário brasileiro. Se a crítica empilhou elogios aos filmes, o segmento também centralizou debates acadêmicos em vários pontos do país. O crítico de cinema da Folha de Londrina, Carlos Eduardo Lourenço Jorge, credita o fenômeno a três fatores: o impulso na produção provocado pela câmera digital, a adesão de alguns cineastas de ficção ao gênero e a acolhida generosa do circuito exibidor alternativo.
''O momento mundial é bastante favorável'' diz ele. ''O documentário 'Jogando Boliche por Columbine', de Michael Moore, foi exibido no festival de Cannes e tiveram que criar uma categoria especial para premiá-lo. O filme, que fala do culto às armas nos Estados Unidos, é impressionante''. Foi, aliás, o primeiro documentário a sair da Croisette com um troféu. Favorito absoluto para o Oscar de melhor documentário no próximo ano, o filme já faturou US$ 13 milhões nos cinemas dos Estados Unidos.
No Brasil, ''Edifício Master'' é a coqueluche da temporada. Vencedor do primeiro kikito dado pelo júri de Gramado para a categoria documentário, inaugurada este ano depois de 30 anos de festival, o filme de Eduardo Coutinho reúne depoimentos de moradores do tradicional espigão de 12 andares, com 23 apartamentos por andar, localizado no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Coutinho, um mestre do gênero, extraiu histórias da boca de 27 pessoas do prédio esboçando um curioso perfil do brasileiro comum e do ser humano em sua busca pela superação das dificuldades cotidianas. Na investigação, o cineasta e sua equipe trouxeram à tona histórias de amor, histórias trágicas, histórias de fracassos e histórias engraçadas.
''Ônibus 174'', de José Padilha, foi outro filme badalado do ano que chega ao fim. Arrebatou platéias em festivais reconstituindo o sequestro que paralisou o país, a partir da zona sul do Rio de Janeiro, ao ser filmado e transmitido ao vivo pela TV no dia 12 de junho de 2000. O documentário, de viés sociológico, revisita a tragédia intercalando as imagens da ação com a história da vida do sequestrador Sandro do Nascimento mostrando como um típico menino de rua carioca virou bandido.
Lembra a infância abandonada de Sandro, além de contar que ele foi um dos sobreviventes da chacina da Candelária e que chegou a ficar um ano preso para depois de ser solto como inocente. Outro documentário de grande repercussão nesta temporada foi ''Janela da Alma'', de João Jardim e Walter Carvalho, exibido em apenas duas sessões em Londrina, no mês passado, durante o evento ''A Expressão Fotográfica e os Cegos''.
O filme discute o tema ''visão'' reunindo depoimentos de artistas, intelectuais e pessoas comuns da Europa e do Brasil. As abordagens passam pela filosofia, medicina, biologia, música e literatura. Os 19 entrevistados foram escolhidos a partir de suas próprias deficiências de visão, que vão da miopia à cegueira. Entre eles estão o escritor José Saramago, o músico Hermeto Pascoal, o neurologista Oliver Sacks, o cineasta Wim Wenders e o filósofo-fotógrafo esloveno Evgen Bavcar.
Bem acolhido nas salas exibidoras, ''Janela da Alma'' teve 125 mil espectadores figurando entre os dez filmes nacionais de maior público este ano. ''Surf Adventures'', de Arthur Fontes, também entrou na lista com 200 mil espectadores. Mereceram comentários ainda os documentários ''Rocha que Voa'' de Eryk Rocha (filho de Glauber), ''Onde a Terra Acaba'' de Sérgio Machado, ''Viva São João!'' de Andrucha Waddington; e ''Timor Lorosae O Massacre que o Mundo Não Viu'' de Lucélia Santos.
O ainda inédito ''Sons da Bahia'', produzido pela Conspiração Filmes com a Conexão Marketing e Comunicação, estréia hoje, às 23 horas, no canal pago GNT mostrando a diversidade sonora de um dos estados mais musicais do país. Dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Paulo Caldas, o documentário traz depoimentos de personalidades (Gilberto Gil, Antonio Risério, Roberto Mendes, etc), além de registrar manifestações do interior como Reizado, Zambiapunga, Bule Bule, Filarmônicas e Orquestra de Berimbaus.
O mesmo GNT reprisa amanhã, às 23h30, o aclamado documentário de longa-metragem ''Santo Forte'', de Eduardo Coutinho.

mockup