São Paulo, 18 (AE) - "Santo Forte", documentário de Eduardo Coutinho que estréia amanhã (19) em São Paulo e concorre no próximo Festival de Brasília (23 a 30), compõe um painel interessante com outros filmes que falam da religiosidade brasileira: "Fé", de Ricardo Dias, "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, e "São Jerônimo", de Julio Bressane. Em seu documentário, o diretor preferiu restringir o ângulo de visão, uma maneira pessoal de aprofundar-se naquilo que deve estudar.
Tudo foi integralmente filmado, ou melhor, registrado em vídeo, depois passado para película pelo processo de kinescopagem, na Favela Vila Parque da Cidade, na zona sul do Rio. Um bairro pobre, de cerca de 3 mil habitantes. "Foi sempre esse o meu método de trabalho favorito", disse o diretor em conversa com a reportagem. "Procuro estreitar o enfoque para compreender melhor e também não me interessava fazer um painel amplo das religiões do País", diz. Para entrar nesse universo restrito, Coutinho contou com uma pesquisa básica, conduzida pela antropóloga Patrícia Guimarães. Depois, subiu o morro e começou a conversar com os moradores. Durante 20 dias, gravou 15 longos depoimentos, na edição final reduzidos para 11. Deixava a pessoa falar à vontade, sem a preocupação comum a todos cineastas de estar gastando película à toa. "Por isso, para esse tipo de projeto, a captação de imagens tinha de ser em vídeo; o filme seria inviável se usasse película desde o começo". E não apenas por uma questão de economia, embora esse fator tenha sido importante. Num tempo de orçamentos milionários
que não se pagam na bilheteria, "Santo Forte" saiu da prancheta por meros R$ 310 mil.
Não se nota o baixo custo. E, ainda por cima, diz o diretor, foi usada uma câmera analógica, o que pôs alguns problemas de ajuste na finalização. Mas são detalhes técnicos, que passam despercebidos pelo público em geral e costumam ser flagrados apenas por especialistas. "Ninguém vai ao cinema querendo saber se aquilo foi feito assim ou assado ou quanto se gastou; as pessoas vão assistir a um filme e ponto", conclui. Surpresas - Nesse sentido, Coutinho, autor de um clássico do documentário brasileiro como "Cabra Marcado para Morrer", tinha em mente um projeto bastante simples. Pelo menos em aparência. Interessam os depoimentos. E estes são fortíssimos, como o santo que dá título ao documentário. As pessoas conversam com o diretor e o tema é um só, pelo menos de início: como elas se relacionam com suas crenças e com as crenças dos outros. Tudo começa assim, de maneira quase cândida, mas, aos poucos, as surpresas vão surgindo.
O que as pessoas dizem é inesperado, o que justifica a frase tida como favorita do diretor: "Tudo que não conheço me interessa". Na verdade, a frase é "Tudo que é humano me interessa", diz ele, uma divisa de ressonâncias latinas e, no caso, perfeitamente aplicável à questão religiosa. Da pergunta pela fé de cada um, Coutinho ouviu relatos inusitados. Há a dançarina de streap-tease que fala da sua pomba-gira. O senhor de idade, que fala do seu casamento ao mesmo tempo e tom em que fala de sua devoção. Os testemunhos do sobrenatural, contados, se o termo cabe, com tanta naturalidade que parecem indubitáveis. Há, finalmente, o depoimento de uma senhora, considerado por unanimidade como o mais impressionante pelas pessoas que já viram o filme.
Uma velha senhora que declara já ter vivido outras existências e que, em uma delas, certamente fora uma rainha. Ela olha bem fundo para o entrevistador e declara que tem gostos sofisticados. Aprecia perfumes, música clássica, coisas boas. Como pode ter esses gostos, como pode conhecer o que é bom pobre como é e sempre foi? Coutinho não fala, mas muito da arquitetura social brasileira se desvela por meio desse simples discurso sobre a religião. Depoimentos de tal profundidade precisavam de tempo para ser obtidos. Mais uma razão para o suporte vídeo. "O depoimento integral dessa mulher tem 1h10", lembra-se o diretor.
Antiilusionismo - Não há nenhum sentido ilusionista no filme. Não se disfarçam as condições de filmagem, ouve-se a voz do entrevistador, que é o próprio cineasta, e às vezes a câmera aparece. Em outra sequência, um membro da equipe é visto pagando uma diária a um dos depoentes. Tudo é feito às claras. Coutinho comenta seu método: "O dinheiro é apenas um dado entre outros; o fundamental é a situação de filmagem - o essencial mesmo é o encontro, eu e minha equipe, com o outro". Tudo nasce daí. Por isso, as interferências são bem-vindas, além de inevitáveis.
Coutinho conta, por exemplo, que o depoimento da senhora que acha que foi rainha foi melhor com ele, diante da câmera, do que no contato prévio com a pesquisadora. Como se a pressão do momento a fizesse caprichar mais ou concentrar-se em tornar sua história mais dramática ou interessante. O diretor costuma incorporar a força do acaso ao filme. "Aliás, não tem outro jeito, a situação documental obriga a isso", diz. Por essa razão, em outro de seus filmes, "O Fio da Memória", deixa intacta a gozação que sofreu de um dos entrevistados, o velho Aniceto do Império, que lhe diz: "Mas o senhor é muito ingênuo, não?"
Em outro documentário, "Boca do Lixo", as pessoas que buscam alimentos do lixão recebem a equipe de filmagem com desconfiança: "Não estamos roubando nada..." Essas interferências, não posadas, "naturais", conferem uma força muito grande aos trabalhos de Coutinho. E esses trabalhos são tão densos talvez porque se sinta que estão ancorados em um real vivido e não em abstrações. "Filmo o concreto, que são as falas dos personagens; a partir daí que cada qual tire uma conclusão"
diz o diretor, secamente. Para Coutinho, há excesso de opiniões no mundo ("cronistas demais", resmunga), sempre dispostos a tornar públicas as suas interpretações para tudo e todos. Ele gosta dos fatos.
Mas reconhece que fatos não vêm em estado bruto. "Claro que o filme é construído, mas também é aberto, a interpretação final fica por conta de quem o vê", diz. Tudo que quis foi apresentar eticamente seus personagens, as figuras humanas que vivem na Favela Parque da Cidade: "Eles são belos, eles são fortes, não a opinião que se possa ter sobre cada um deles". O cineasta sabe que produz alguma forma de conhecimento sobre esse real humano que lhe interessa tanto. "Não tinha graça dizer que no Brasil há sincretismo, porque seria chover no molhado, todo mundo sabe disso", afirma.
Mas ficou surpreso com a presença maior da umbanda que do candomblé. E surpreendeu-se ainda mais com pessoas como a moça, a única atéia declarada, que, cinco minutos depois, começou a falar pelos cotovelos do "seu" orixá. "Acho que é impossível mudar o mundo sem conhecê-lo e o filme talvez contribua para entender como se move esse povo - até mesmo politicamente". Não cabe a menor dúvida disso.

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