''Melhor morrer de vodca que de tédio'', frase do poeta Vladimir Maiakóvski (1893-1930) que estampa a camiseta de um figurante, resume o espírito do documentário ''Gráfica Utópica'', de Aurélio Michiles (''O Cineasta da Selva''), que a TV Cultura exibe no sábado, às 20 horas.
Criada a partir da exposição homônima, que passou pela cidade no começo do ano, a produção enfoca o pensamento russo futurista/construtivista dos anos 20. Para não tornar a obra dispersiva demais, Michiles colocou o foco sobre Maiakóvski, a figura mais representativa do período, que ajudou a transformar a propaganda em arte de vanguarda.
''Fico deprimido com a banalidade do tempo atual; antes de começar o documentário, perguntava-me se valia a pena contar essa história'', conta Michiles.
Superada a indecisão inicial, o diretor percebeu que tinha em mãos um poderoso material. ''O legado desses artistas é importante até hoje; durante um curto período, eles acharam que poderiam mudar o mundo. Foram destruídos pela tendência autodestrutiva da humanidade.''
Ao lado de outros nomes que apostavam na vanguarda, como Serguei Eisenstein, Maiakóvski sofreu a repressão do regime stalinista, que apertou o cerco contra possíveis conspirações nas diferentes manifestações artísticas. Em 1930, ele comete suicídio.
Michiles cita ainda outros fatores para comprovar a atualidade de tais pensamentos. Segundo o cineasta, 200 mil pessoas visitaram a exposição no Rio de Janeiro. ''Os cartazes russos do período são impactantes até hoje; há os saudosistas do pensamento de esquerda e, por fim, os jovens que procuram uma ideologia.''
A produção de Michiles traz cenas do filme ''A Senhorita e o Vagabundo'' (1918), em que Maiakóvski aparece como ator, além de depoimentos de personalidades como os diretores teatrais Cacá Rosset e José Celso Martinez (cuja geração, nos anos 60, foi fortemente influenciada pelo russo), o músico Arnaldo Antunes e o crítico Boris Schnaiderman.

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