Documentário resgata cemitério do filme 'Três Homens em Conflito' 50 anos depois
Produção da Netflix traz de volta cenário icônico de um filme de Sergio Leone
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de novembro de 2020
Produção da Netflix traz de volta cenário icônico de um filme de Sergio Leone
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
A História do Cinema é feita de muitas grandes, pequenas e estranhas histórias, registradas em textos didáticos (acadêmicos ou não), ensaios, reportagens jornalísticas e fatos verídicos muitas vezes tratados pelo enfoque da ficção. E também, e cada vez mais - e ainda bem - tratada com muito carinho (e às vezes não) pelo próprio cinema pela via documental. Por exemplo: a lendária elegância do cemitério onde três pistoleiros, o bom, o mau e o feio, aqueles três homens em conflito duelando no spaghetti western de Sergio Leone realizado em 1966, é um desses momentos mágicos que reivindicam a memória cinéfila, resgatam o melhor da arte cinematográfica e fazem refletir sobre a importância dos mitos no imaginário coletivo.

A longa (20 minutos) sequência final no Cemitério de Sad Hill foi filmada na província de Burgos, imediações de Covarrubias. A equipe do longa-metragem construiu ali o campo de concentração da guerra civil, a ponte e o cemitério. Mas realmente inusitado é que, meio século depois das filmagens e da carreira cult percorrida ainda hoje pelo “Três Homens em Conflito”, um punhado de espanhóis aficionados, muito mais que fãs de carteirinha, criaram a Associação Cultural Sad Hill. Missão: comemorar o cinquentenário do filme, desenterrando as ruínas do cemitério e transformar o local em santuário do longa.
Sir Christopher Frayling , ensaísta de cinema e biógrafo de Sergio Leone, diz no documentário que as pessoas recorrem à arte, aos filmes, para encontrar neles o que a religião não proporciona. E entre os muitos títulos que guardam relação intensa com o publico ele destaca “Il Buono Il Brutto, Il Cattivo”, justamente o titulo que encerra a “trilogia do dólar” de Leone e que impulsionou definitivamente a carreira de Clint Eastwood. É de fato uma sequência quase mítica, em que se confrontam Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach (de longe o melhor intérprete do filme) pela posse do ouro escondido entre cadáveres em plena Guerra da Secessão. O cemitério circular, que Sergio Leone chamava de “arena”, permite ao diretor uma cenografia de rara inspiração: ele dilata o tempo e exaspera a ansiedade à espera do tiroteio final, ao som de Morricone. Uma espécie de bravura estilística que o elevou à altura dos grandes realizadores do cinema, e alguém que afinal dava credibilidade e honradez à variante europeia de um gênero até então estadunidense por excelência.
E então temos o documentário “Desenterrando Sad Hill”, de Guillermo de Oliveira, disponível em Netflix (infelizmente a plataforma tornou indisponível o longa de Leone: ideal que sejam vistos juntos, se possível no mesmo dia). É certo que não é nada extraordinário, formalmente (entrevistas para a câmera, relato cronológico, inserts informativos). Extraordinário é o que ele representa, expressa e faz refletir, o que não é pouco. Há fragmentos de entrevistas do diretor que se tornam bem atuais, como seu olhar crítico sobre fatos sociais e políticos que o filme disfarça com outros tempos históricos – a guerra civil americana –, enquanto registra suas imagens durante a Espanha franquista, se referindo às trincheiras da Secessão como os campos de extermínio espanhóis.
O filme concentra seu trabalho braçal na arqueologia daquela turma que pegou no pesado para trazer de volta seus tesouros afetivos. Pedra após pedra, os 5 mil túmulos da ficção voltaram à vida. E o imaginário coletivo fez o resto. Assim, foi apenas questão de tempo para que um grupo de loucos por cinema reunisse forças e vontades suficientes (algum dinheiro também ajudou, claro) para revitalizar e adorar este lugar sagrado. O cinema, é bom lembrar, é uma questão de fé.
Basta a melodia inicial de Morricone para se render à tamanha fascinação, ou então perguntar James Hetfiled, vocalista do Metallica, uma das vozes a dar testemunho no documentário. Os notáveis Joe Dante (diretor de “Gremlins”), Alex de la Iglesias, Sergio Salvati (câmera de Leone) somam seus testemunhos junto aos verdadeiros protagonistas do relato: os fâs responsáveis por tão arrojada empresa. Quando Sad Hill emerge em seu esplendor, e o entardecer recebe a luz de um projetor de cinema ao ar livre, quem aparece na tela para delírio dos seguidores da seita são o próprio Morricone e Clint Eastwood. O céu deixou de ser o limite. Não importa aqui os excessos de certo sentimentalismo cinéfilo. Neste momento, o que interessa é que podemos ter a certeza de que somos consciente do poder do cinema, de sua capacidade transformadora.


