A História do Cinema é feita de muitas grandes, pequenas e estranhas histórias, registradas em textos didáticos (acadêmicos ou não), ensaios, reportagens jornalísticas e fatos verídicos muitas vezes tratados pelo enfoque da ficção. E também, e cada vez mais - e ainda bem - tratada com muito carinho (e às vezes não) pelo próprio cinema pela via documental. Por exemplo: a lendária elegância do cemitério onde três pistoleiros, o bom, o mau e o feio, aqueles três homens em conflito duelando no spaghetti western de Sergio Leone realizado em 1966, é um desses momentos mágicos que reivindicam a memória cinéfila, resgatam o melhor da arte cinematográfica e fazem refletir sobre a importância dos mitos no imaginário coletivo.

As ruínas do Cemitério de Sad Hill,  local ícone de um filme de Sergio Leone, foram desenterradas
As ruínas do Cemitério de Sad Hill, local ícone de um filme de Sergio Leone, foram desenterradas | Foto: Netflix/ Divulgação

A longa (20 minutos) sequência final no Cemitério de Sad Hill foi filmada na província de Burgos, imediações de Covarrubias. A equipe do longa-metragem construiu ali o campo de concentração da guerra civil, a ponte e o cemitério. Mas realmente inusitado é que, meio século depois das filmagens e da carreira cult percorrida ainda hoje pelo “Três Homens em Conflito”, um punhado de espanhóis aficionados, muito mais que fãs de carteirinha, criaram a Associação Cultural Sad Hill. Missão: comemorar o cinquentenário do filme, desenterrando as ruínas do cemitério e transformar o local em santuário do longa.

Sir Christopher Frayling , ensaísta de cinema e biógrafo de Sergio Leone, diz no documentário que as pessoas recorrem à arte, aos filmes, para encontrar neles o que a religião não proporciona. E entre os muitos títulos que guardam relação intensa com o publico ele destaca “Il Buono Il Brutto, Il Cattivo”, justamente o titulo que encerra a “trilogia do dólar” de Leone e que impulsionou definitivamente a carreira de Clint Eastwood. É de fato uma sequência quase mítica, em que se confrontam Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach (de longe o melhor intérprete do filme) pela posse do ouro escondido entre cadáveres em plena Guerra da Secessão. O cemitério circular, que Sergio Leone chamava de “arena”, permite ao diretor uma cenografia de rara inspiração: ele dilata o tempo e exaspera a ansiedade à espera do tiroteio final, ao som de Morricone. Uma espécie de bravura estilística que o elevou à altura dos grandes realizadores do cinema, e alguém que afinal dava credibilidade e honradez à variante europeia de um gênero até então estadunidense por excelência.

E então temos o documentário “Desenterrando Sad Hill”, de Guillermo de Oliveira, disponível em Netflix (infelizmente a plataforma tornou indisponível o longa de Leone: ideal que sejam vistos juntos, se possível no mesmo dia). É certo que não é nada extraordinário, formalmente (entrevistas para a câmera, relato cronológico, inserts informativos). Extraordinário é o que ele representa, expressa e faz refletir, o que não é pouco. Há fragmentos de entrevistas do diretor que se tornam bem atuais, como seu olhar crítico sobre fatos sociais e políticos que o filme disfarça com outros tempos históricos – a guerra civil americana –, enquanto registra suas imagens durante a Espanha franquista, se referindo às trincheiras da Secessão como os campos de extermínio espanhóis.

O filme concentra seu trabalho braçal na arqueologia daquela turma que pegou no pesado para trazer de volta seus tesouros afetivos. Pedra após pedra, os 5 mil túmulos da ficção voltaram à vida. E o imaginário coletivo fez o resto. Assim, foi apenas questão de tempo para que um grupo de loucos por cinema reunisse forças e vontades suficientes (algum dinheiro também ajudou, claro) para revitalizar e adorar este lugar sagrado. O cinema, é bom lembrar, é uma questão de fé.

Basta a melodia inicial de Morricone para se render à tamanha fascinação, ou então perguntar James Hetfiled, vocalista do Metallica, uma das vozes a dar testemunho no documentário. Os notáveis Joe Dante (diretor de “Gremlins”), Alex de la Iglesias, Sergio Salvati (câmera de Leone) somam seus testemunhos junto aos verdadeiros protagonistas do relato: os fâs responsáveis por tão arrojada empresa. Quando Sad Hill emerge em seu esplendor, e o entardecer recebe a luz de um projetor de cinema ao ar livre, quem aparece na tela para delírio dos seguidores da seita são o próprio Morricone e Clint Eastwood. O céu deixou de ser o limite. Não importa aqui os excessos de certo sentimentalismo cinéfilo. Neste momento, o que interessa é que podemos ter a certeza de que somos consciente do poder do cinema, de sua capacidade transformadora.

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