São Paulo, 03 (AE) - No dia 18 de outubro de 1825, sob o comando do cônsul russo no Brasil, Georg Heinrich von Langsdorff, o barão de Langsdorff para os íntimos, partiu do Rio Tietê a maior expedição fluvial já realizada no País para coleta de exemplares da flora e fauna e estudo da etnografia brasileira. Durante quatro anos, parando aqui e ali, a equipe seguiu em canoas Brasil adentro registrando em desenhos, aquarelas e cadernos de viagem, as paisagens, os animais, as plantas, o dia-a-dia das tribos indígenas e a vida privada dos brasileiros da primeira metade do século passado.
Em agosto, portanto quase 174 anos depois da aventura maluca do que ficaria conhecido como expedição Langsdorff, uma equipe da produtora Grifa Cinematográfica partirá do mesmo Rio Tietê, não na cidade de São Paulo, mas de Porto Feliz, a 140 quilômetros da capital, para percorrer 7 mil quilômetros até o Rio Amazonas, em Belém do Pará. O resultado da nova viagem será o documentário "Expedição Langsdorff", com três episódios de meia hora.
Os donos da Grifa, os irmãos Maurício e Fernando Dias, embarcam amanhã (04) para Miami onde participam, na semana que vem, de um seminário do Discovery Channel ao lado de produtoras e emissoras de TV que formam a rede de colaboradores do canal. No encontro, eles terão de defender seu projeto ao lado de outros 14 produtores que esperam obter o patrocínio do Discovery. "De qualquer forma, o Discovery já garantiu a exibição do nosso documentário e ofereceu a sua co-produção a emissoras de outros países", explica Fernando. O documentário está orçado em US$ 350 mil, caso seja filmado em 16 mm, ou US$ 280 mil, se for gravado em vídeo.
O primeiro contato com executivos do Discovery foi feito erm outubro, durante o MipCom, uma das maiores feiras de compra e venda de programas para a TV que se realiza duas vezes por ano no Palais du Festival, em Cannes, na França. Na época, representantes da emissora pediram à Grifa que desenvolvesse um projeto sobre os 500 anos do Descobrimento do Brasil. A primeira idéia era mostrar o mau aproveitamento de uma das maiores bacias hidrográficas do mundo, na contramão do que se fará agora, descendo de barco de Belém até a Patagônia. Foi quando um navegador de Santa Catarina sugeriu a Maurício e Fernando refazer a expedição Langsdorff.
O objetivo do documentário é confrontar a paisagem e analisar o desenvolvimento de regiões e povos nesses quase dois séculos. Além de Langsdorff, que era médico, botânico, zoólogo e antropólogo, a expedição contratou mais um botânico, um zoólogo, um astrônomo, um topógrafo e dois pintores. O francês Aimé-Adrien Taunay foi contratado como primeiro-desenhista da expedição e era auxiliado pelo pintor Hércules Florence. O pintor Maurício Rugendas chegou a ser chamado, mas desistiu da viagem pouco antes de seu iníico.
Os desenhos originais feitos por Taunay e Florence estão hoje expostos no Museu do Ipiranga, em São Paulo, e no Museu de São Petersburgo, na Rússia. Taunay entrou na expedição em substituição a Rugendas com experiência em expedições anteriores, como a que explorou a Oceania entre 1818 e 1820. Taunay morreu antes de a viagem terminar. Uma das canoas virou, ele conseguiu alcançar a margem do Rio Guaporé, próximo à fronteira da Bolívia, mas na ânsia de cruzar o rio afundou nas águas barrentas.
Nos três anos que permaneceu como primeiro-desenhista da expedição, Taunay registrou numa aquarela, entre tantas paisagens, a Cachoeira do Inferno, no interior da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso. Num exemplo do que o documentário pretende ser, a equipe da Grifa registrou a mesma paisagem em 1996 durante as filmagens do documentáiro Três Chapadas e um Balão. "Vamos confrontar a evolução e a alteração que ocorreu em lugares como a cidade de São Paulo com paisagens que permanecem ainda intocadas, como a Cachoeira do Inferno", diz Maurício.
A expedição da Grifa terá três botes de borracha com motor, sendo dois para a equipe e um terceiro, uma espécie de bote- guia, que rastreará quedas dágua e correntezas muito fortes. O grupo terá quatro pessoas diretamente ligadas à produção (diretor, produtor, operador de som e diretor de fotografia) e três navegadores, além da tripulação do bote-guia.
A equipe acredita que a primeira das três etapas da viagem será a menos arriscada. No Estado de São Paulo, em que percorrerá, entre outras, as cidades de Capivari, Bariri, Araçatuba e Ilha Solteira, a navegação será feita por hidrovias, como a Tietê-Paraná e a Paraná-Paraguai. "Além disso, vai ser possível pernoitar nas cidades ribeirinhas" diz Maurício.
Na segunda etapa, a mais dífícil, no Mato Grosso, seguirão pelo Pantanal até a cidade de Cuiabá, de onde prosseguem por terra, por 250 quilômetros, até a localidade de Arinos. Vão cruzar as cidades de Promissão, Ladário, Corumbá, Barão do Melgaço, Rondolândia, Garimpo Juruelha até Boa Vista. É a chamada pré- Floresta Amazônica, onde começam a surgir dificuldades por causa das cachoeiras e das fortes corredeiras. A última etapa começa no Pará, no Rio Tapajós, em Jacareacanga, em plena Floresta Amazônica, e segue por Pinhel, Santarém, Gurupá, Breves, Curralinho, Muanã, Ponta das Pedras até Belém.
Das muitas mortes ocorridas na expedição de 1825, uma delas foi provocada por picadas de mosquitos. "Acho melhor levarmos uma piscina cheia de repelente", brinca Maurício. Fernando não viaja. O barão de Langsdorff enlouqueceu após a expedição e retornou à Rússia, onde morreu em seguida. Poetas e balões - A Grifa foi criada em 1996 e entre seus principais trabalhos estão as séries Três Chapadas e Um Balão, em que uma equipe de 20 pessoas e, na verdade, dois balões, revelou as riquezas naturais da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, dos Veadeiros, em Goiás e Diamantina, na Bahia e Mapas Urbanos, que retarta as grandes cidades brasileiras sob o olhar de seus poetas e compositores.
Até o início das filmagens de "Expedição Langsdorff", a produtora deve exibir numa emissora aberta ou a cabo, o documentário de 52 minutos "Confidências do Rio da Morte". Filmado na Comarca do Rio das Mortes, no sul de Minas, e com trilha sonora original do percussionista Naná Vasconcellos, o documentário conta a história dos povos remanescentes dos arraiais, vilas, quilombos e aldeias da região.

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