São Paullo, 09 (AE) - Luiza Pereira Lobo, 73 anos, cearense do sertão central, rosto riscado pelo tempo qual solo esturricado, costas curvadas pelo cansaço, memória falha, mal consegue lembrar onde guardou a caixa de costura 20 minutos atrás, mas não esquece o dia, o mês, a hora, a roupa que usava e a fome que sentia quando entrou no inferno, às 7 horas do dia 10 de maio de 1932. Há 67 anos, então com 6, a pequena Luiza, o pai
a mãe, a avó e mais oito irmãos, chegaram à Comissão, nome técnico de um verdadeiro campo de concentração montado pelo governo cearense para isolar os milhares de miseráveis, vítimas de uma das maiores secas do século no Estado.
Luiza perdeu o pai, a mãe e os oito irmãos. Morreram de fome, de sede, de exaustão, de disenteria, de cólera. Das 16 mil pessoas que entraram no campo, pelo menos mil morreram. O relato emocionante de Luiza, assim como o de outros 22 sobreviventes, são o ponto de partida do documentário-ficção "Serca Seca" (assim mesmo, com s), de 70 minutos, que está sendo finalizado pelo cearense Flávio Alves, de 24 anos. Não há no filme de Alves nenhuma proposta de inovação estética. "Minha pretensão é contar essa história e ajudar as pessoas daquele lugar", explica o diretor. O lugar é Senador Pompeu, distante 270 quilômetros de Fortaleza, no chamado sertão central do Ceará.
A formação de Alves resume-se aos cursos de edição, fotografia e iluminação oferecidos gratuitamente pelo Senac, em São Paulo. Além de dirigir o filme, ele é também produtor, roteirista, iluminador e maquiador. A palavra cerca é grafada com s no título porque, segundo Alves, era assim que as crianças da figuração escreviam durante as filmagens. Pagamento em comida - "Serca Seca" começou a ser rodado em julho de 1997 e foi interrompido inúmeras vezes sempre pelo mesmo motivo: falta de dinheiro. Para arregimentar cerca de 300 figurantes, o diretor imaginou que poderia pagá-los com comida. Lançou uma campanha de arrecadação de alimentos numa das principais rádios da região. Em menos de um mês, reuniu 4,8 toneladas de alimentos não perecíveis. Até onde se tem notícia, pela primeira vez no cinema os figurantes foram pagos com arroz, feijão, milho e pão. "O problema depois foi que ninguém queria morrer no filme para não parar de receber a comida", conta o diretor.
O filme agora está "por pouco", conta Alves. "Falta apenas editar alguns trechos e sonorizar". A trilha é um de seus orgulhos. Foi feita por Manassés de Souza. Custou R$ 8 mil, custeados pela Secretaria de Estado da Cultura do Ceará. O filme já consumiu R$ 14 mil. Ele tem 30 horas gravadas em super-VHS. Camelô - Sem dinheiro para concluir o filme (faltam R$ 4 mil), Alves voltou há poucos meses para São Paulo, onde viveu por oito anos - entre 89 e 93 em Sorocaba e de 93 a 96 na capital. Mora com a mulher e a filha de 1 ano numa quitinete no centro da cidade. Sem emprego fixo, virou camelô e perambula pelo centro da cidade vendendo dezenas de camisetas com a estampa de seu filme. Tira R$ 600 por mês, repartidos entre o sustento da família e a poupança para finalizar o filme. Ele quer lançar "Serca Seca" até o fim de agosto numa sessão para os moradores de Senador Pompeu.
O município, próximo à Barragem do Patu, foi escolhido para receber uma das sete comissões montadas pelo governo e acabou sendo palco de uma experiência nefasta. O que os sobreviventes de Senador Pompeu chamam de "inferno" somente ganharia a denominação "campo de concentração" sete anos mais tarde, com o nazismo na Alemanha. Essa história sombria começa alguns anos antes, em 1919. Decidido a dar um basta nas secas que desde sempre castigavam o Ceará, o governo da época resolveu construir uma barragem a partir das águas dos Rios Patu e Banabuiu.
As obras tiveram início no mesmo ano e foram tocadas pela empresa inglesa Wight P. Robson, que tivera carta branca para instalar seus engenheiros na região. "Eram engenheiros ingleses e peões nordestinos", relata o cineasta. A empresa inglesa construiu confortáveis casarões para os seus funcionários. As construções em estilo gótico com alpendres destoavam da paisagem miserável e árida da caatinga. Distante um quilômetro das mansões foi construída a vila operária: cerca de 200 casas feitas de taipa, com pilares de bambu revestidos de barro seco.
Quatro anos mais tarde, por falta de dinheiro, foi decretada a paralisação definitiva das obras. Os operários e suas famílias se estabeleceram definitivamente no local e passaram a sobreviver do plantio de milho e feijão. O arquiteto e urbanista Irani Fogaça escreveu sua tese de graduação no ano passado sobre a reforma dos casarios construídos pelos ingleses em Senador Pompeu. Ele passou dez dias na região. "Construíram uma pequena cidade com 12 casarões, mais a vila operária e hospital, escola e armazém", conta. "E hoje está tudo abandonado".
A estiagem de 32, no entanto, seria mais violenta do que a que estavam acostumados a se safar. Como a chuva não vinha, o gado morria e a comida chegava ao fim, milhares de pessoas começaram uma série de saques a minimercados, quitandas e onde mais encontrassem comida. Com fome e sede, sob o calor médio de 42 graus da região, as invasões ao comércio ganhavam adeptos em cidades vizinhas: Mombaça, Acopiara, Solonópolis, Iguatu, Pedra Branca. Preocupado com o aumento dos saques e com a massa de flagelados ameaçando migrar para a capital, no mês de abril o governo decidiu criar sete campos de apoio aos quais chamou de comissões. Havia comissões em Quixeramobim, Ipu, Crato, Quixadá, Juazeiro do Norte, Fortaleza e Senador Pompeu.
"O governo dizia que quem quisesse escapar da fome e da sede era só se dirigir para uma das comissões", conta Alves. "Sem opção, gente de todos os lugares partiu para esses redutos". Senador Pompeu era o destino dos famintos das cidades vizinhas. Cabeças raspadas - A chegada dos flagelados brasileiros nas comissões assemelha-se ao modo como os judeus eram recebidos nos campos nazistas. Em Senador Pompeu, as pessoas tinham a cabeça raspada por causa dos piolhos, recebiam uma combinação de calça e camisa brancas feitas de sacos de açúcar e os chefes de família ganhavam uma senha que lhes daria direito a uma cesta básica. Ironia, em maio de 32, o governo Vargas baixava o decreto 21.354 que estabelecia a jornada de oito horas na indústria e, semanas mais tarde, novo decreto estabelecia o princípio de salário igual para trabalho igual. Para os moradores de Senador Pompeu não havia trabalho tampouco salário. A miséria igualava-os.
Em pouco tempo, cerca de 16 mil famílias instalaram-se no campo de Senador Pompeu. "Quem entrasse não podia sair", lembra o sobrevivente Guilherme Sabino, de 74 anos. Soldados montavam guarda nas trilhas de acesso ao campo. "Eles tomavam todas as bocas de caminho", narra. "Quem cismasse de fugir era levado para o sebo". O sebo era a prisão, um cubículo de dois metros quadrados construído em taipa. Tripas de boi - A "cesta básica" distribuída no campo consistia num punhado de feijão preto, farinha, tripa e sangue de boi coalhado. "Quem comia morria de disenteria e quem não comia morria de fome", resume outra sobrevivente, dona Emília, de 78 anos. Às vezes era dado café, açúcar e arroz, mas só a papa, chamada de xeréu. As filas para receber a comida começavam a ser formadas por volta do meio-dia e ainda à noite havia quem esperasse pelo alimento. "Como o feijão era velho, estragado, as pessoas socavam os grãos com o pilão e cozinhavam aquela massa", conta o diretor.
"Lembro que o sangue de boi coalhado era torrado com café e feijão", conta a sobrevivente Luiza Lobo. "Quase todo mundo que a gente conheceu lá dentro morreu", relata outra sobrevivente, Maria de Jesus. "Comíamos farinha velha com sangue de boi". Segundo contam os sobreviventes, coveiros revezavam-se em turnos para trabalhar 24 horas por dia tantos eram os mortos. "Os corpos eram jogados em valas cobertas por pedras para evitar a presença de cachorros e de urubus", descreve o diretor. Governo ignora - No Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Denocs), em Fortaleza, não há registros do episódio. "Não há dados oficiais porque é muito antigo", informa a direção do Denocs por meio de seu assessor de Imprensa, José Clayton. O órgão responsável pelas secas na época era a Inspetoria Federal de Obras contra as Secas (Ifocs). Em fevereiro de 33, 11 meses depois de aberto o campo de concentração de Senador Pompeu, uma forte chuva desabou sobre a região e as pessoas começaram a voltar para as suas terras.
Desde então, uma vez por ano, uma procissão sai às 4 horas da manhã do centro de Senador Pompeu e caminha cerca de três horas até o antigo campo de concentração, hoje conhecido como Cemitério da Barragem do Patu. No trajeto, cerca de 4 mil pessoas acompanham a reconstituição de algumas das situações vividas por seus pais e avós. Relembram a tragédia para não perdê-la na memória. Como se precisasse.

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