Documentário 'Buena Vista Social Club', que concorre ao Oscar, celebra a música19/Mar, 14:37 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 19 (AE) - Houve um tempo em que Wim Wenders era chamado de "Sr. Cinema". Os críticos o respeitavam, ele colecionava prêmios, seus filmes cults faziam sucesso num segmento mais intelectualizado do público. Faz tempo. Os últimos filmes de Wenders têm sido decepcionantes. Ou tinham - pois Wenders agora dá a volta por cima, recupera a capacidade de surpreender e emocionar. Seu documentário "Buena Vista Social Club" é belíssimo. Transmite um amor por Cuba, pela música, pelo cinema, que o transforma numa experiência rara. O filme está na corrida do Oscar. Se ganhar, como se espera, o prêmio de documentário, ultrapassará os limites da estética para criar um fato político. A Academia de Hollywood estará atropelando a geopolítica do presidente Bill Clinton e abrindo-se para um país que os Estados Unidos têm, sistematicamente, isolado nas últimas décadas. Wenders, além de animal cinematográfico, é um ser musical. A música sempre foi importante no seu cinema. O rock percorre seus filmes. U2 é uma referência constante em sua obra, Lou Reed e Nick Cave são personas frequentes na sua estética. Mas Wenders não se fecha numa tendência. Em "O Céu de Lisboa", abriu espaço para a música do Madredeus. Refilmou partes do desastroso "Até o Fim do Mundo" para incluir nelas a fadista Amália Rodrigues. Wenders ama o fado. Gosta de compará-lo ao blues e jura preferir a música do coração dos portugueses. Diz que o blues é triste e carrega na autopiedade, o fado descreve a dor e também é triste, mas possui uma força escondida que ele não hesita em definir como "arrebatadora". Sob a influência de Ry Cooder, que compôs a bela trilha de "Paris, Texas", descobriu a velha-guarda da música cubana. O documentário resgata os artistas que frequentavam o lendário "Buena Vista Social Club", em Havana. A apresentação desses artistas em Amsterdã e, depois, no Carnegie Hall serve de estrutura para o trabalho. Entre as duas explosões de vitalidade da música cubana no palco, Wenders acompanha Ibrahim Ferrer, Rúben Gonzalez e seus amigos nas ruas de Havana, de Nova York, flagra-os em casa, falando sobre eles, no estúdio, criando a sua arte. São emocionantes as cenas de Havana. Fazem a ponte entre os artistas da ilha pré-revolucionária e a Cuba atual, como se Wenders quisesse, ao mesmo tempo, libertar-se de Bernardo Bertolucci e de Talleyrand. Wenders não acredita na delícia de viver antes da revolução. Numa parede de Havana, a câmera flagra a inscrição: Nossa revolução é eterna. Em outra parede, outra inscrição: Queremos sonhos. O filme toma partido, e não apenas o da música da velha-guarda. Nada define melhor o espírito dos artistas que Wenders reverencia, mais do que homenageia, do que essas inscrições anônimas. Eles trazem para a cena a extraordinária musicalidade do povo cubano. Música de raízes. Popular, autêntica. Difícil dizer qual desses artistas merece mais respeito. Ibrahim Ferrer é uma figura mágica, carismática. No palco, magnetiza, mas alguns dos melhores momentos do filme são quando ele lembra sua infância carente, o duro trabalho pela sobrevivência. Os duos de Ferrer com Omara Portuondo levantam qualquer platéia, consegue-se perceber a eletricidade no ar. Tão grande quanto ele, ou maior ainda, é Rúben Gonzalez, um gênio do piano. O filme celebra sua elegância, seu porte aristocrático. Quando ele fala de sua formação musical, é quase um erudito rememorando sua experiência. Novas técnicas - Durante muito tempo, Wenders, como Peter Greenaway, foi um arauto do cinema do futuro, discutindo as novas tecnologias que poderão mudar a própria linguagem fílmica. Já estão mudando. "Buena Vista Social Club", paralelamente à sua vitalidade musical, ao fascínio dos personagens, é o resultado de um projeto ambicioso que começou quando Wenders uniu sua produtora, a Road Movies, no ano passado, com a empresa de produção pós-digital Das Werk. O filme foi inteiramente rodado com câmeras digitais, que aliavam extrema mobilidade, indispensável ao projeto, com alta definição de imagem. Posteriormente, esse material gravado foi transferido para película. O processo não é inédito. É semelhante ao que foi usado no cinema brasileiro por Eduardo Coutinho (em Santo Forte) e Bia Lessa (em Crede-Mi). A importância da tecnologia digital de "Buena Vista Social Club" está no fato de o diretor colocá-la a serviço de uma narrativa poética. Como ele afirma - pode fazer tudo o que o cinema permite e ir um pouco além. O filme realmente vai além de tudo o que você já viu em matéria de documentário sobre música. Wenders superou-se. Criou um fato artístico e cultural da maior relevância.