Documentário abre competição
O 31º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro será aberto amanhã à noite, com a exibição hors-concours do curta-metragem Novembrada, de Eduardo Paredes, e do documentário Atlântico Negro - Na Rota dos Orixás, de Renato Barbieri. Novembrada, eleito melhor curta pelo público do último Festival de Gramado, reconstitui o confronto entre o governo e a oposição nas ruas de Florianópolis durante a visita do então presidente Figueiredo à cidade, em 1979.
O inédito Atlântico Negro documenta as relações socioculturais entre a África e o Brasil motivadas pelo tráfico de escravos. Mas calma: não se trata do enésimo apanhado exótico-turístico das belezas do candomblé e da capoeira na Bahia. Embora realizado dentro de um formato bastante convencional, o filme de Renato Barbieri beneficia-se da escolha de um ângulo original, que privilegia a cultura vodu, de origem jeje-daomeana, difundida principalmente na região do Maranhão. Claro que o candomblé também está no documentário, mas tratado num contexto histórico mais amplo. O que o filme faz é buscar, no atual Benin (o antigo Daomé), na costa ocidental africana, os traços remanescentes das culturas africanas transplantadas para o Brasil pelos escravos. No Daomé, entre os povos de língua jêje e iorubá, surgiram e conviveram durante séculos o culto dos orixás e o vodu. Hoje coexistem na região três grandes vertentes religiosas: o catolicismo, o islamismo e aqueles antigos cultos tribais.
A força de Atlântico Negro está em mostrar a continuidade temporal e geográfica desses cultos, por sobre os séculos e o oceano. Os dois pontos altos do filme são o diálogo, via vídeo, entre dois sacerdotes vodus - um no Maranhão, o outro no Benin - e o rastreamento do que restou no Benin da passagem dos negros brasileiros que voltaram para lá. É curioso descobrir que até hoje há festas brasileiras na região, embora a língua portuguesa já tenha sido quase totalmente esquecida. Além disso, o documentário tem o mérito de ser muito bem realizado, abrindo-se às cores vivas e à música sensual dos ritos africanos. Toda essa festa dionisíaca se equilibra com os depoimentos sóbrios (às vezes até demais) dos estudiosos, compondo um filme vibrante e informativo.(J.G.C.)





