DOCUMENTÁRIO - O violonista do outro mundo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de outubro de 2003
Mauro Dias<br> Agência Estado 
O documentarista francês Jean-Claude Guiter adora música brasileira e foi muito amigo de Baden Powell. Esteve junto dele por três anos, filmando seus movimentos, gravando as histórias que contava. Promoveu o reencontro de Baden com o poeta Pierre Barrouh e com Claude Nugaro, outros dois franceses fascinados pelo samba, pela cultura afro-brasileira e pelo músico violonista. Barrouh fez a versão em francês do ''Samba da Bênção'', então ''Saravá'', tal como aparece na trilha do filme ''Um Homem, Uma Mulher''. Nugaro verteu ''Viramundo'', de Gilberto Gil e ''Capinam'', que virou ''Brésilien Mon Frère d'Armes''.
Guiter levou Baden de volta a Varre-e-Sai, a cidadezinha do norte fluminense em que nasceu, filho do chefe de escotismo, neto do maestro negro que liderou a primeira orquestra de negros a tocar no Teatro Municipal do Rio. Pôs o músico para tocar na mesa humilde de casa humilde, com gente humilde fazendo coro. Ouviu seus parceiros, filmou-o tocando, juntou cenas de arquivo e montou o documentário ''Velho Amigo - O Universo Musical de Baden Powell'', que a Universal acaba de lançar.
Embora tenha muita música, é menos um filme sobre música do que sobre a pessoa do protagonista, tão pouco conhecida. Baden Powell de Aquino era um homem tímido, de fala baixa, voz fina, histórias longas e calmas. Frequentava os amigos e não era fácil entrar para seu círculo de amizades. Um homem que vivia para a música. Bem, era também um boêmio capaz de desaparecer de casa e passar noites bebendo nos botequins imundos, os antros de ronda, vinte e um, porrinha que João Bosco e Aldir Blanc cantaram no samba-choro Bandalhismo. Queimou a vida em álcool, mas essa parte não aparece no documentário. Aparece, sim, no depoimento de Paulo César Pinheiro, parceiro de Baden em mais de uma centena de preciosidades: Paulinho Pinheiro conta que Baden praticava tanto ao violão que era capaz de entrar em cena bêbado, carregado, e tocar como se estivesse muito bem. A técnica garantia.
''Com toda boemia, toda farra, eu nunca deixava de fazer seis, oito horas de violão por dia'', conta o próprio Baden. E foi assim desde menino, profissional quando ainda usava calças curtas. ''Ele traduz o Brasil, ele é caboclo, africano, ele é a grande sumidade do violão brasileiro, que começa e acaba nele mesmo'', louva Hermínio Bello de Carvalho. ''A música popular brasileira foi dividida nas mãos de Tom Jobim e Baden'', insiste Paulo César Pinheiro.
''Eu nasci numa cidade pequenininha, fronteira com o Espírito Santo e Minas Gerais'', Baden conta. Menino, roubava o violão do pai, um festeiro, e acabou ganhando seu próprio instrumento, quando tinha seis anos. Corta. Baden aparece embevecido, vendo o filho Jean Marcel tocar, violonista exímio. (O outro filho, Louis Philippe Baden Powell de Aquino, é pianista. Exímio.)
Com aqueles mesmos seis anos, foi estudar com Jaime Florence, o Meira, um pernambucano que deu aulas ao único possível herdeiro de Baden, Raphael Rabello. Os amigos de Meira eram Pixinguinha, João da Baiana, Benedito Lacerda. ''Por sorte fui criado nesse bololô, Pixinguinha, samba'' - é Baden quem fala. ''A sabedoria vem do choro'', confessa, lembrando que foi criado - em São Cristóvão, perto do centro carioca - entre os morros da Mangueira, do Tuiuti e a Barreira do Vasco, berços de escolas de samba.
Fala-se de Vinicius de Moraes. Baden aparece no palco, no Olympia, Paris, com Toquinho, Miúcha, o poeta cantando de olhos fechados, sentado no centro do palco, Tom Jobim ao fundo, papel de pianista.
''Ele era um homem muito bonito, parecia o Ghandi de alma brasileira'', diz Claude Nougaro. Baden toca uma Marselhesa que tinge com frases do nosso Hino à Bandeira. Baden fala do amor pela França, onde morou por muitos anos e gravou muitos discos. Imagem de arquivo, rara: o menino Baden, ao violão, acompanha Pixinguinha, ao saxofone, tendo João da Baiana marcando ritmo com prato e faca. Pixinguinha canta sambas antigos em francês, lembrança do tempo em que os Oito Batutas estiveram em Paris, no início do século passado.
Close em Baden, olhos fechados, rosto crispado. Fala Paulo César Pinheiro: ''Quando ele pegava o violão mudava, o semblante mudava, ele ficava em outro mundo.'' Baden aparece quase o tempo todo usando cachecol. Temia o coup de vent, golpe de vento. Usava camisas de gola alta e nos dias mais quentes tinha lã envolvendo o pescoço.
Baden Powell morreu, aos 63 anos, em 2000. Tentou parar de beber, virou religioso, tarde demais. Deixou algo como 500 composições, discografia dispersa, poucas imagens. O documentário ''Velho Amigo'', belíssimo, cumpre importante papel na preservação da memória de um dos grandes gênios musicais do século 20.


