José Geraldo Couto
Agência Folha
O mais célebre dos brasileiros, eleito na última sexta-feira o maior jogador de futebol do século, vai ter finalmente sua mais completa tradução em cinema. O produtor paulista Anibal Massaini Neto está preparando o documentário ‘‘Pelé - O Atleta do Século’’, com lançamento previsto para maio (hipótese otimista) ou outubro (hipótese pessimista) do ano 2000. O filme, com roteiro do escritor e cineasta José Roberto Torero, colunista da Folha de S.Paulo, contará basicamente com imagens de arquivo – jogos, treinos, reportagens – entremeadas por alguns poucos depoimentos do próprio Pelé e de ex-atletas e treinadores que conviveram com o craque. Nos últimos meses, Massaini tem pesquisado intensamente em arquivos de emissoras de TV brasileiras e das produtoras de cinema Atlântida, Herbert Richers e Primo Carbonari.
Uma das principais fontes de imagens, obviamente, é o acervo do cinejornal ‘‘Canal 100’’, que fez a delícia dos cinéfilos-torcedores dos anos 60 aos 80. Massaini, que já coletou mais de cem horas de material, diz que o próprio Pelé ficou impressionado com a quantidade de imagens inéditas ou desconhecidas do grande público. ‘‘Ele disse que o filme será a ‘‘Bíblia’ do Pelé’.’’
Grande parte desse patrimônio estava esquecida em depósitos de emissoras, em condições precárias de conservação. Assim, acredita o produtor, a realização do filme contribuiria para que esse precioso acervo hoje disperso seja recuperado e organizado. Um caso eloquente é o do célebre gol marcado por Pelé contra o Fluminense no Maracanã em 5 de março de 1961, que mereceu uma placa comemorativa no estádio, dando origem à expressão ‘‘gol de placa’’.
Em sua pesquisa, Massaini encontrou imagens daquele jogo em dois arquivos, da TV Record e do cinejornal ‘‘Atualidades Atlântida’’ – só que, em ambos os casos, o ‘‘gol de placa’’, em que Pelé driblou seis adversários, não estava. ‘‘Provavelmente eles tiraram o trecho do gol para usar em outras reportagens, e agora essas imagens estão perdidas sabe-se lá onde’’, diz o produtor.
Outro exemplo dado por Massaini é o do acervo da TV Gazeta: ‘‘Havia lá um monte de filmes de 16 mm largados. Telecinamos tudo, e agora eles dispõem daquilo.’’ Massaini ainda prevê mais uns dois ou três meses de pesquisa em arquivos de cinema e televisão do Brasil e do exterior. ‘‘Na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio ainda não conseguimos nem entrar, de tanto material entulhado. Com certeza tem muita coisa boa lá.’’
O documentário está orçado em R$ 4 milhões e deverá ter dois formatos: um longa-metragem para cinema e uma série destinada à televisão. O próprio Massaini dirige o projeto por enquanto, mas não descarta a possibilidade de contratar um diretor para dar continuidade ao trabalho. ‘‘Não sei se terei condições de me dedicar integralmente ao filme’’, afirma o produtor e distribuidor.
Anibal Massaini diz que pensou em fazer o documentário por considerar que Pelé, o mais ilustre dos brasileiros, ‘‘devia estar mais presente quando se fala nos 500 anos do Brasil’’. De acordo com o produtor, que aliás é palmeirense, está ganhando corpo entre políticos, intelectuais e esportistas a idéia de criar um Museu do Esporte em São Paulo, no parque Villa-Lobos. Esse novo museu receberia o nome de Museu Pelé.
Para Massaini, seu filme não pode ser comparado aos dois longas-metragens anteriores que tiveram o jogador como tema: ‘‘O Rei Pel钒 (1963), de Carlos Hugo Christensen, e ‘‘Isto É Pel钒 (1974), de Luiz Carlos Barreto. ‘‘São filmes muito limitados, por causa das circunstâncias em que foram feitos. Para começar, em ambos os casos, Pelé estava ainda em plena atividade. Nosso documentário será muito mais completo.’’ Massaini, que se diz ‘‘amigo de Pelé de longa data’’, garante que o filme não será uma ‘‘versão autorizada’’ da trajetória do ex-jogador. ‘‘Ele nunca me cobrou nada e não tenho nenhum compromisso nesse sentido. Não será um filme ‘chapa-branca’.’’
O produtor diz que podem entrar no filme ‘‘coisas pessoais’’ de Pelé, mas não se mostra muito interessado em remexer em aspectos controvertidos da vida do ex-craque, como a paternidade não assumida de uma filha fora do casamento.

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