DOCUDRAMA - Um requiém para Manoel Fiel Filho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Luiz Carlos Merten e Felipe Recondo<br> Agência Estado 
Domingo, mais ou menos 16 horas. Céu parcialmente encoberto na zona leste de São Paulo. No cemitério da Quarta Parada, no Tatuapé, três mulheres de preto descem por uma alameda depois de depositar rosas vermelhas num túmulo. De um praticável, montado em outra alameda, elas são filmadas - pois se trata de uma filmagem - pelo diretor que mantém um olho no monitor e outro no cronômetro, enquanto se ouve de fundo (e alto) Elis Regina soltar a voz nos versos de ''O Bêbado e a Equilibrista'', de João Bosco e Aldir Blanc, que virou hino da anistia (e da campanha pela volta dos exilados políticos). Há um clima de profunda emoção na coisa toda que traz lembranças de uma fase sombria da vida brasileira. Mas para as três mulheres é pior.
São a mulher, Thereza de Lourdes Fiel, e as duas filhas, Márcia e Aparecida, de Manoel Fiel Filho, o metalúrgico que, no início de 1976, foi preso na fábrica em que trabalhava - Metal Arte -, acusado de distribuir aos colegas o jornal ''A Voz Operária'', um impresso clandestino do Partido Comunista Brasileiro. Levado para o porão do DOI-Codi, em São Paulo, foi torturado e, em poucas horas, estava morto.
Ele foi o 39º morto - entre as vítimas oficialmente reconhecidas - pelo regime militar, mas seu caso foi classificado como suicídio. Foi o ''suicídio'' de Manoel Fiel Filho, 84 dias após outra morte em circunstâncias idênticas, a do jornalista Vladimir Herzog, na mesma carceragem, que levou o então presidente Ernesto Geisel a colocar um ponto final nos porões da ditadura.
''Meu marido foi um mártir'', diz a viúva. O caso de Vladimir Herzog repercutiu muito mais e, até hoje, a cada aniversário de morte do ex-diretor de jornalismo da TV Cultura, a família Fiel sente-se discriminada, porque, ao falar de Herzog, ninguém se lembra de Manoel Fiel Filho e, quando falam de seu sacrifício nos porões da ditadura, a história é sempre pretexto para que se volte a falar de Herzog.
É um pouco essa injustiça que o jornalista e diretor Jorge de Oliveira quer corrigir em seu documentário. Ele está colocando dinheiro do próprio bolso na realização do filme. ''Inscrevi o filme na Petrobras e não ganhei nada. Não houve interesse da comissão que avaliava os projetos em recuperar a história de um herói brasileiro, mas 'eles' (a comissão) colocaram dinheiro da Petrobras num filme como 'Meu Nome Não É Johnny'. Muito instrutivo'', provoca.
''Meu filme não é sobre Manoel Fiel Filho. Uso o caso dele, que me parece exemplar, para falar de um quadro muito mais amplo - o envolvimento da CIA, isto é, dos norte-americanos, na repressão política montada no Cone Sul, nos anos 70'', explica o diretor. Seu filme vai ser um misto de documentário e realidade reconstituída, aquilo que se chama de ''docudrama''.
O título veio de uma frase do brasilianista Jordan Young, entrevistado por Oliveira em Washington. Oliveira perguntou a Young o que diria a Manoel Fiel Filho, sobre o envolvimento do seu governo na máquina de tortura e morte montada na América do Sul, há mais de 30 anos. A resposta dele virou título do filme de Jorge de Oliveira. ''Sorry, Mr. Fiel - Perdão, Mr. Fiel''.
Para a mulher e as filhas do ex-metalúrgico, não é fácil debruçar-se sobre uma fase tão dolorosa da vida de todas. ''Somos espiritualistas kardecistas e sabemos que só os ossos de meu pai estão aqui neste cemitério'', diz Márcia, que tinha 16 anos, na época. ''Já choramos todas as nossas lágrimas'', Aparecida acrescenta. ''Mas a emoção ainda é muito forte.
A música tem quase 4 minutos - 3min40 - e os dois minutos iniciais foram gravados no Pólo de Cinema de Sobradinho, próximo a Brasília. Foi lá que Oliveira reconstituiu a cela do DOI-Codi em que o corpo de Manoel, interpretado pelo ator Roberto de Martin, é encontrado no chão, repleto de hematomas e enforcado com a própria meia de náilon azul. ''É um filme tenso, uma luz crua'', define o diretor. A cena de tortura foi a mais difícil. ''Ficou um clima pesado'', diz o diretor, que gravou - com equipamento digital - durante duas semanas. ''Fiquei mal'', acrescentou o ator De Martin.
Oliveira espera poder estrear seu filme no Festival de Brasília, em novembro. Antes disso, é provável que ''Perdão, Mr. Fiel'' ganhe mais algum destaque na mídia por um detalhe que não é irrelevante. A injustiça em relação a Manoel Fiel Filho é tão grande que, até quando a União se dispôs a indenizar familiares e vítimas do regime militar, a viúva do operário recebeu uma das menores indenizações que foram pagas pelo Estado. Thereza de Lourdes Fiel está recorrendo da decisão.
O dinheiro não vai remediar o sofrimento de 32 anos de dona Thereza, mas é uma questão de Justiça e ela vai brigar pelo que lhe é de direito. O mais incrível foi o que o diretor descobriu ao investigar o assunto. Manoel Fiel Filho foi preso por engano. A polícia política procurava um agente cujo codinome era Fiori. Na confusão dos nomes, Manoel foi preso - e morto. Mas seu sacrifício não foi em vão.


