Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Algumas tentativas de mesclar jazz e choro esbarram na falta de uma costura tênue entre as duas linguagens. Os resultados normalmente tendem ao desequilíbrio. Com uma formação inusitada, unindo saxofone e violão de sete cordas, Mané Silveira e Swami Jr. seguiram o caminho contrário ao trabalharem minuciosamente as tessituras de ‘‘Ím㒒, lançado pelo Núcleo Contemporâneo.
Ao invés de jazz com sotaque brasileiro ou choro com improvisos jazzísticos, o disco alcançou o equilíbrio no trabalho de arranjo. As características dos dois gêneros foram lapidadas a cada compasso, e algumas músicas ganharam reconstruções com artifícios engenhosos.
No disco, a estruturação de melodia, harmonia e arranjos aproximam os estilos. Enquanto o sax - tocado por Mané Silveira - é um instrumento que se aprimorou nas entranhas do jazz - Pixinguinha optou por ele quando perdeu a embocadura da flauta -, o violão de sete cordas - tocado por Swami Jr. - foi criado no Brasil especialmente para o repertório de choro.
Tanto Mané Silveira quanto Swami Jr. têm influência do jazz, mas são enraizados na música brasileira. Para não se limitar à interpretação, a dupla se debruçou sobre cada melodia, provocando surpresas no diálogo sax-violão, sem fugir do improviso.
Também há uma relação de contraponto interessante. Enquanto um instrumento mergulha em solos agudos, outro transita pelas notas mais graves. Mas isso não é uma regra. O repertório ilustra a aproximação de jazz e choro, trazendo composições de Django Reinhardt e John Coltrane ao lado de Pixinguinha e K-Ximbinho. Ainda há espaço para Victor Assis Brasil, Charlie Haden e José Miguel Wisnik, além de composições próprias de Mané Silveira e Swami Jr.
‘‘Começamos a ensaiar no fim de 1997, depois de sete anos de espera, pois desde 1990 pensamos nesse disco. Nós tivemos a preocupação de manter o interesse a cada faixa’’, explica Mané Silveira, que esteve em Londrina participando do 19º Festival de Música.
A valsa ‘‘Waving’’, de Victor Assis Brasil, por exemplo, abre o CD e sofre uma modulação para terminar em outra tonalidade. ‘‘Na verdade eu tocava em um tom e o Swami em outro, e usamos um pretexto para tocar nos dois tons’’, comenta o saxofonista.
Os arranjos também ilustram a preocupação vigente na música instrumental brasileira de fugir do lugar-comum. ‘‘Nós pensamos cada música, sempre escapando do óbvio. Eu e o Swami temos um parentesco musical e uma afinidade no jeito de pensar a música’’, acrescenta. O resultado agradou à crítica, e a dupla já pensa em se tornar quarteto, acrescentando em um futuro trabalho um contrabaixo e percussão. Se seguir os rumos de ‘‘Ím㒒, tem tudo para resultar em outro ótimo CD. O disco tem distribuição nacional pelo Núcleo Contemporâneo, telefone (0 + código da operadora +11) 3873-1386.Mané Silveira e Swami Jr. lançam ‘‘Ím㒒, disco instrumental que promove o encontro do saxofone e violão de sete cordas
ReproduçãoMário CésarMané Silveira e o seu ‘‘Im㒒: disco traz equilíbrio entre linguagens do jazz e do choro

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