São Paulo, 29 (AE) - Os museus paulistanos têm causado surpresa nos últimos tempos com uma agradável novidade: colecionadores particulares, sensibilizados com a melhoria das condições museológicas e a qualidade das exposições das instituições, vêm engrossando acervos com doações de obras. "Eu diria que é uma espécie de boom que estamos experimentando aqui", afirma o diretor da Pinacoteca do Estado, Emanoel Araújo. Em maio, ele fez um discurso emocionado ao receber o Prêmio Multicultural Estadão, no Sesc Pompéia, agradecendo o despojamento de uma colecionadora.
"Ela veio até a Pinacoteca com um pequeno embrulho sob o braço e disse que estava orgulhosa do trabalho que o museu estava fazendo e que gostaria de doar duas obras de sua coleção para a gente", conta Araújo. Ele desembrulhou o pacote e lá estavam duas telas de Pancetti, um dos mais valorizados pintores brasileiros. "Eles ficaram tão felizes que eu fiquei duplamente feliz", diz Lúcia Casas Pilla, a doadora. As obras que Lúcia doou estão estimadas em R$ 150 mil. "Sei que o espírito de Pancetti concordaria com minha decisão".
"Eu não quero fazer dinheiro com as obras do meu pai, esse negócio de arte valorizada não é comigo", diz Carlos Júlio Starace, filho do italiano Giulio Starace (1887-1952), contemporâneo de Brecheret e Emendabili e um dos mais importantes escultores que atuaram no Brasil na primeira metade do século. Starace Filho doou 13 esculturas de seu pai para a Pinacoteca.
Segundo Tadeu Chiarelli, do MAM, as doações mostram uma mudança de mentalidade entre os colecionadores, principalmente os mais jovens. "Essa nova geração tem consciência de que não adianta formar coleções privadas fortes sem ter acervos públicos de peso, que lhes dê legitimidade", diagnostica Chiarelli. Um exemplo dessa mudança é a história de como o MAM conseguiu em poucos meses adquirir sete obras de Farnese de Andrade. No ano passado, durante a exposição do artista mineiro, organizada pela Nova Galeria, um grupo de colecionadores, liderado por João Figueiredo Ferraz, ofereceu verba de R$ 6 mil para o MAM adquirir algo para seu acervo e Chiarelli escolheu duas esculturas.
Em seguida, estimulado por essa iniciativa, Gilberto Chateaubriand doou dois desenhos de Farnese ao museu que, logo que pôde, expôs esses trabalhos (com os outros três que já possuia). A irmã e a sobrinha do artista foram ver a exposição como visitantes comuns e ficaram tão encantadas com o que viram que se ofereceram para doar duas novas assemblages. "Resultado: o museu tem hoje uma presença marcante de Farnese", comemora o curador. Outro grande benemérito do MAM é o marchand Paulo Figueiredo, que, em 1997, doou um pacote de mais de cem obras.
Outra contribuição que não pode ser esquecida é aquela feita pelos próprios artistas. Chiarelli conta que recentemente comprou um trabalho de Waltércio Caldas na Galeria Thomas Cohn e o marchand deu um bônus de R$ 10 mil para a aquisição de uma obra. A escolha de Chiarelli recaiu sobre uma pintura de Carlos Zílio. O artista, sensibilizado, decidiu doar uma obra sua de grande valor histórico, da década de 60. "Todo mês pinga alguma coisa", celebra Chiarelli, lembrando que "o máximo que o doador pode dizer é não".

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