Em “The Mastermind”, sem título em português, mas podendo ser traduzido como “O Mestre da Mente”, a diretora estadunidense Kelly Reichardt empreende uma viagem fascinante pela América dos anos 1970, onde um roubo inocente se transforma em uma fuga que ressoa com os protestos contra a Guerra do Vietnã como pano de fundo e com as tensões políticas de agora.

O filme, não exatamente ao sabor das grandes plateias, supreendentemente encontra a partir desta quinta-feira (16) um nicho de exibição em pelo menos uma sala de Londrina, como extensão de sua estreia nacional, também hoje. E esta sim, é chance imperdível para qualquer cinéfilo que se preze. É obra muito representativa da ainda pequena filmografia desta cineasta minimalista e já tornada cult, na qual se destaca “Yes” e “A Primeira Vaca”, e na qual também está refletido o sinal dos tempos, através de um olhar acurado.

A ação se passa ali por volta do final dos 1960, início dos 70, em uma pequena cidade no interior de Massachusetts. O noticiário televisivo revela que o país perdeu sua bússola moral. Tropas americanas estão causando estragos no Vietnã — assim como os massacres perpetrados hoje em Gaza — e, em muitas universidades do país, estudantes que resistem à guerra são reprimidos e perseguidos. Isso não se parece em nada com o que acontece hoje, durante o governo Donald Trump, embora na época o presidente fosse Richard Nixon...

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CAOS E CONFUSÃO

Nesse contexto de caos e confusão, que chega quase abafado à pacata cidade de Framingham, um jovem pai (esposa e dois filhos), carpinteiro, personagem fascinante, decide, no entanto, cruzar uma linha da qual não pode mais retornar, como se algo no espírito do tempo o impelisse a dar livre curso a um impulso do qual nem ele mesmo parece consciente. Seu nome é J.B. Mooney (interpretado por Josh O'Connor), sua obsessão é a arte e ele está determinado a roubar quatro pinturas do artista Arthur Dove, considerado um pioneiro da arte abstrata americana, do museu local.

Naquela época, a vigilância dos museus era tão precária quanto escassa (as câmeras de segurança ainda estavam a anos de distância), e o roubo, perpetrado em plena luz do dia, parece simples.

Mas, como costuma acontecer nos melhores filmes do gênero – há décadas, do mestre francês Jean-Pierre Melville aos atuais dos irmãos Josh e Benny Safdie –, algo dá errado. Neste caso, os cúmplices são desajeitados, não há muitos suspeitos à vista e JB Mooney deixa muitas marcas.

J.B é forçado a fugir. E nessa fuga, nos conectamos mais uma vez com o aspecto político dos filmes da diretora Reichardt. Não pelo roubo em si, nem pela empatia que sentimos por esse anti-herói, mas por sua profunda ingenuidade (um roubo baseado mais em questões sentimentais do que financeiras). Mas sim porque, como já descrevi, estamos em 1970 e a tevê transmite mais e mais notícias sobre o Vietnã, em um contexto de crescentes movimentos antiguerra.

NOVA PERSONALIDADE

A relação que o filme estabelece entre roubo e guerra é vaga, até o final que redefine toda a história. O ideólogo tem uma ideologia, e no final, este homem, que calcula tudo e nunca para de pensar em seu próprio benefício, é completamente revelado. Nu. Em reviravolta completamente inesperada, em vez de um fugitivo da justiça, J.B. se torna um clandestino que deve adotar nova personalidade, como os jovens que, fugindo do Vietnã, foram para o Canadá. Assim, inesperadamente, nos deparamos com um filme sobre o Vietnã, com aqueles EUA dos anos 1970 onde o recrutamento voluntário é incentivado, um filme que também nos fala do presente daquele país, nos enviando uma mensagem inequívoca: não podemos ficar impassíveis diante da injustiça e das ambições totalitárias de Trump, qualquer ato terá consequências e não poderemos nos desculpar por um erro quando ele também nos afetar.

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