Do popular à sofisticação
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terça-feira, 16 de setembro de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
DivulgaçãoCláudia Telles: ... infelizmente quem faz o popular é a mídia, que tem memória pequenaNão dá para esquecer o passado tão facilmente. E mesmo que quisesse, Cláudia Telles não poderia por dois motivos: primeiro que não há arrependimentos artísticos por parte dela e, segundo, e principalmente, seu público não deixa. Por mais sofisticada que atualmente esteja, em seus shows ela, a pedidos, tem que cantar Fim de Tarde - hit de 76 que a projetou nacionalmente. Era uma baladinha água-com-açúcar feita para tocar nas rádios e que tornou-se, para os modernetes de hoje, que não assumem seu lado brega, cult.
Aos 40 anos de idade, somente agora ela pôde, como explica, gravar um disco só com músicas interpretadas por sua mãe, Sylvia Telles, uma das principais vozes da Bossa Nova, que morreu em acidente automobilístico em 77. Chama-se Por Causa de Você (CID). A cantora garante que teve carta branca para selecionar repertório (retirado basicamente dos discos Carícia e Amor de Gente Moça, de Sylvinha, gravados entre 57 e 59) e até mesmo dar sugestões na capa.
São 13 faixas, das quais um pout-pourri - Corcovado, Samba do Avião (ambas de Tom Jobim), Rio e Você (as duas de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli). O disco abre e fecha com a participação especial da voz Sylvia Telles. Milagres da tecnologia que propiciou o dueto de mãe e filha nas belíssimas Dindi e Se Todos Fossem Iguais a Você.
Esse recurso não é nenhuma novidade do outro mundo. Mas acabou ficando interessante pelo timbre semelhante que as duas têm. Vale também pelo esforço de Jaime Alem que fez os arranjos em cima dos fonogramas originais.
O interessante de Por Causa de Você, além do repertório de pérolas, é que não se trata de um disco puramente de bossa nova. Ou seja, o estofo sonoro nada tem de cool, clima que normalmente prevalece em trabalhos similares.
E Cláudia Telles, mesmo técnica aqui ou ali, no geral se mostra uma intérprete madura que se permite até mesmo brincar, de leve, com alguns compassos. Exemplos: A Felicidade (Tom Jobim-Aloysio de Oliveira) e Amendoim Torradinho que, independente do trocadilho, ficou uma delícia. Claro que Por Causa de Você não é nenhum trabalho glorioso e marcante. Mas é sincero. E o que é melhor: chega a emocionar aqui, ali, acolá. Vale, portanto, dar uma conferida.
Ironia do destino - Não se pode afirmar categoricamente que, daqui pra frente, tudo vai ser diferente na carreira de Cláudia Telles. Sua imagem ainda está associada à de cantora popular ou popularesca que fez o Brasil inteiro (com exagero) cantar o seu Fim de Tarde e também Eu preciso Te Esquecer, outra música glicosada.
Não tem como esquecer o passado e também não quero apagar uma parte de minha vida só por causa de preconceito de algumas pessoas - diz ela. Quando gravei Fim de Tarde tinha 18 anos e eu curti muito. Só que as pessoas esperavam de mim uma espécie de Sylvinha Telles, a Missão - completa.
Mas o tempo passou e, para não aderir a modismos impostos pelo mercado fonográfico, se afastou do mundo dos discos. Pero no mucho . Continuou fazendo backing vocal nas gravações de artistas como Simone, Roberto Carlos, Fafá de Belém e, mais recentemente Martinho da Vila e Elza Soares, entre outros.
Shows, sim. Mas foram oito anos de afastamento dos discos solos - ao todo ela gravou quatro elepês, dois CDs e 15 compactos. Não faz a mínima idéia de quanto vendeu. Pois bem. Depois de tanto tempo sem gravar, ela recebeu uma proposta - aceita na hora - para gravar, em 95, pela CID, um disco só com músicas de Nelson Cavaquinho e Cartola. Vendeu 15 mil cópias. Um número considerado pela cantora bom já que não houve praticamente nenhuma divulgação.
Daí, veio o convite da cúpula da gravadora para fazer Por Causa de Você. Por muito tempo eu tentei fazer esse disco mas algumas gravadoras achavam que não era vendável - informa. Agora com o trabalho pronto, Cláudia se vê diante da ironia do destino. Tenho dificuldades de tocar esse disco nas rádios - afirma. Se derem oportunidade o povo ouve mas infelizmente quem faz o popular é a mídia que tem memória pequena- complementa.
Atualmente, Cláudia está com um show em cartaz, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, ao lado de Tito Madi. Bom público, repertório de primeira, espetáculo intimista calcado em voz, teclado e viola. Porém, Cláudia vira e mexe tem que voltar ao palco para cantar advinha o quê? Sempre pedem Fim de Tarde e eu canto com o maior prazer. Afinal, fui eu quem abriu essa linha romântica no Brasil já que antes eram só versões de músicas internacionais - orgulha-se.


